sábado, 4 abril, 2026
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Rogério Galindo: muito além do repórter dos “furos”

Rogério Waldrigues Galindo

Quem está acostumado a ler o site Plural, percebe claramente que Rogério Waldrigues Galindo é jornalista diferenciado, não apenas pelas significativas frentes de lutas que assume, justas, (por exemplo, contra o racismo), mas igualmente pela rara qualidade com que encaminha seu pensamento. Tem lastro, bagagem e olhar crítico bem moldado.

Ele consegue trabalhar com as melhores técnicas de redação jornalística (a começar por aquelas boladas pelos americanos no final dos anos 1930), mesmo quando aborda temas considerados “difíceis para o dia a dia de jornal”.

Isso acontece porque, tal como seu irmão, Caetano, professor da UFPR, e tradutor de Joyce (precisa dizer mais?) – ele cedo deve ter percebido que o profissional do jornalismo tem que caminhar em caminhos difíceis, mas com solidez de pensamento, para entregar sua mensagem.

BEM EQUIPADO

Em outras palavras: Rogério tratou de se armar muito bem culturalmente num universo em que ele, um afrodescendente (como se proclama) iria ter de vencer muitas barreiras usando armas desiguais. A principal delas, o preconceito étnico, que viceja no Brasil, triste marca de que nossa Curitiba não escapa.

Acho que por tudo isso Rogério fez-se exemplar também no jornalismo investigativo, em que percebo poucos nomes no Paraná. Mauri Konig, Vânia Mara Welt, Gladimir Nascimento fazem parte dessa elite investigativa rara. Embora Gladimir, por justos motivos, não queira nem mais ouvir falar em jornalismo como profissão.

O Brasil continua, na melhor das hipóteses, vivendo, nesse capítulo do racismo, sob a “doce” imagem do Casa Grande Senzala. Conheci o professor Augusto Waldrigues, avô dos irmãos Galindo. Ele foi professor da Faculdade de Filosofia de Paranaguá, hoje agregada, acredito, à Unepar. Foi dos primeiros jornalistas formados no Paraná, pela antiga UCP (hoje, PUCPR).

O patriarca Waldrigues foi inspetor geral do IBGE, era um homem culto. Foi chefe de meu pai, com que mantinha bom relacionamento. Meu pai era estatístico, fruto daquela geração de funcionários públicos federais concursados segundo as normas do ex-DASP, autarquia que Vargas fizera nascer para profissionalizar os quadros da União.

PREPAREM-SE

Hoje me deparo com nova presença nacional do jornalista Rogério Galindo: ele é tradutor de uma obra que ainda vai gerar muita repercussão, do norte-americano Frank Wanderson Terceiro, professor de estudos afroamericanos da Universidade da Califórnia – “Afro-pessimismo, Editora Todavia. Rosane Correa de Freitas, também jornalista da Plural, é parceira de Galindo na tradução.  A Folha de São Paulo deste dia 21 apresenta uma entrevista abrangente de Wanderson. Com ela pode-se entender parte do pensamento da elite negra norte-americana.

Frank Wanderson Terceiro

Uma elite que tem a fúria radical de James Baldwin, que li ainda mocinho, com “Next Time, Fire”; e que é pouco compassiva mesmo com os negros que superaram as barreiras do racismo norte-americano, caso de Barack Obama, impondo-se no universo anglosaxão onde até Jesus Cristo tinha de ser amado em igrejas para brancos e pretos, separadas.

Enfim, mostrar o jornalismo com suas ações diárias não caricatas, muito além do tristemente bordado pelos inimigos da liberdade de expressão, essa é uma missão também de um bom tradutor-repórter. Caso de Rogério.

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