sexta-feira, 29 maio, 2026
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Reportagem-denúncia expõe a chaga da exploração sexual de menores no Brasil

O premiado repórter investigativo Amaury Ribeiro Jr transformou a série de reportagens produzidas em duas décadas sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes pobres no Brasil no livro “Poderosos pedófilos” (Editora Matrix).

O título revela a face mais cruel do drama dessas crianças, exploradas por gente que se autointitula “cidadão de bem”, muitos dos quais possuem procuração da sociedade para fazer cumprir a lei.

Juízes, delegados, procuradores de Justiça, políticos, empresários de sucesso são personagens reais das histórias escabrosas de corrupção de meninas de 10, de 12 anos – algumas até mais novas, em capitais como Manaus e Belém e cidades do Amapá, Rondônia e outras do Norte do Brasil.

MENINAS DO SUL

O Sul não passa incólume por essa chaga nacional e se diz presente em meninas paranaenses, catarinenses e gaúchas traficadas para se prostituírem em boates-espelunca em regiões de garimpo ou onde são executadas grandes obras, como foi o caso da Usina de Belo Monte, próximo de Altamira, no Pará.

As reportagens reunidas no livro Poderosos Pedófilos tiveram origem em inconfidências de funcionários da Funai na presença do repórter, quando este acompanhava uma expedição que faria contato com uma tribo isolada na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru.

De maneira desabrida, os servidores se gabavam de frequentar boates em Manaus que exploravam a prostituição infantil, apelidadas “Disneylândia do sexo”.

As denúncias levantadas pelo repórter resultaram em investigações do Ministério Público e da Polícia Federal e ações judiciais que levaram a algumas condenações de poderosos, um dos quais desembargador do TJ de Manaus, acusado pela própria filha de violentar a neta entre os 8 e os 14 anos de idade.

AMAZONAS EXEMPLAR

O Amazonas é exemplar desse ambiente de crimes impunes contra menores: no Estado há mais de 500 processos parados envolvendo abusos sexuais praticados contra crianças e adolescentes, além de 4 mil inquéritos nas delegacias da capital e 2,5 mil processos aguardando julgamento na Vara Especializada em Crimes contra a Dignidade Sexual de Crianças e Adolescentes.

No primeiro trimestre 2019 (último dado atualizado), a Secretaria de Segurança do Amazonas computava 450 casos de violência sexual praticados contra menores na região metropolitana de Manaus – um aumento de 56% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Nessa rede de crimes, além de poderosos agentes públicos e políticos, estão empresários e familiares das vítimas: pais, padrastos, tias e mesmo mães. Estes, em geral, têm uma história pregressa de miséria, ignorância e exploração. Não raro a indução à prostituição infantil está ligada a questões de sobrevivência, mas também não são poucos os casos em que parentes se tornam agentes da mercancia de sobrinhas, vizinhas e até filhas.

“CIDADÃOS DO BEM”

Já os poderosos clientes dessas redes de prostituição infantil costumam ter em comum a quase obsessão por cultivar uma imagem pública de “cidadãos de bem”. São pessoas que se apresentam nas redes sociais como “defensores da moral e dos bons valores cristãos”, muitas vezes usando a bandeira brasileira entre os símbolos que dizem cultuar. Um dos pedófilos condenado pelo TJ da Bahia, confirmando sentença da instância inferior, de Petrolina, era nada menos do que presidente da Associação Nacional dos Conservadores, entidade que tem sede em Brasília.

Apesar de haver algumas condenações definitivas até de altos servidores da Justiça e também da ação protetora de agentes privados no amparo às vítimas da exploração da prostituição infantil, como a Casa Mão Cooperadora, coordenada pelo pastor Edgar Henke e a Mamãe Margarida, ligada à Igreja Católica, o repórter reconhece que essa chaga nacional ainda está longe de ser fechada.

Essa impressão se evidencia no fato de que os responsáveis por milhares de infâncias e juventudes roubadas são homens que circulam com desenvoltura pelos andares superiores do poder.

Serviço: Livro Poderosos Pedófilos Autor: Amaury Ribeiro Jr. Editora Matriz/2020

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