
Marilena Wolf de Mello Braga, dona de memória ímpar do Paraná e sua gente, desde o século 20, manda a colaboração que segue sobre as raízes, vida e carreira do desembargador Renato Braga, que nesta quarta-feira, 1 de fevereiro, toma posse como presidente do Tribunal de Justiça do Paraná. A jornalista está, na verdade, em parte dessas raízes exemplares da história do Paraná.
Marilena, que será personagem do volume 9 de meu livro “Vozes do Paraná”, foi primeira mulher a fazer cobertura de temas políticos em caráter permanente num veículo de comunicação no Estado. Trabalhou anos no jornal O Estado do Paraná. Acompanhe:
RAÍZES DE RENATO

Fatias de ciência, política, saúde pública, conhecimento acadêmico, arquitetura, literatura, vanguarda e bem comum, revisitam o Paraná com a posse do desembargador Renato Braga Bettega, nesta quarta feira, dia 01 de fevereiro, na presidência do Tribunal de Justiça do Paraná. Renato é filho do médico João Luiz Bettega (1916-1996), formado pela UFPR em 1938, especialista em doenças pulmonares, autor de campanhas profiláticas para debelar a tuberculose, que flagelou a primeira metade do século XX. Em 1947 doutor João Luiz assumiu a direção geral do Sanatório Médico Cirúrgico do Portão, cargo que exerceu até 1968. Havia capacidade para 300 pessoas, e ali o médico foi pioneiro nas cirurgias pulmonares.
PNEUMOLOGIA
O Sanatório evoluiu para Hospital do Trabalhador, cujo auditório foi batizado com o nome de Dr. João Luiz Bettega, honrando suas pesquisas na cátedra que teve na UFPR, de Pneumologia, de onde se aposentou em 1981.
Para muitos seu nome não soará estranho, pois foi ele quem deu a oportunidade para o arquiteto Vilanova Artigas construir a casa na Rua da Paz, em Curitiba, hoje um ícone da arquitetura, tombada pelo Patrimônio Cultural. A casa, pronta em 1953, abrigou a família do médico por quase cinco décadas. Foi ali que o desembargador Renato passou infância e juventude.
LADO MATERNO
História do Paraná acompanha o Desembargador também pelo lado materno. Sua mãe, Rute, faleceu jovem e era irmã caçula do médico pediatra Homero de Mello Braga (autor de livros sobre puericultura e de crônicas cotidianas, publicadas pela Gazeta do Povo), e também do deputado federal e depois senador Rubens de Mello Braga.
VACINA BCG
Homero foi um dos introdutores da vacina BCG no Paraná, pois na pediatria seu foco era combater a tuberculose infantil. Formado pela UFPR em 1929, é parte da instituição: foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras e introdutor do Curso de Ciências Biológicas, onde ocupou as cátedras de Biologia Educacional e Geral. Livre docente de Pediatria, em 1969 tornou-se professor de Genética Humana. Aposentou-se em 1977, como professor emérito.
Poucos anos antes dera início à campanha de aleitamento materno, com a polêmica entrevista que rendeu manchete: “Dê a seu filho uma mãe, não uma vaca”, publicada em O Estado do Paraná. Faleceu em 1985.
SENADOR MELLO BRAGA
Rubens de Mello Braga, sindicalista, getulista, um dos fundadores da Frente Nacional do Trabalho, em 1937, e depois do Partido Trabalhista Brasileiro, em 1945, foi deputado federal constituinte de 1946, reeleito em 1950, passando a integrar o secretariado do governador Bento Munhoz da Rocha Netto como seu chefe da Casa Civil e, mais tarde, como titular da pasta da Agricultura.
O professor Homero e Bento eram grandes amigos, e Rubens era o interlocutor de Getúlio Vargas, então presidente da República, no Paraná. Rubens foi, com Bento, receber Vargas quando de sua chegada para inaugurar o Centro Cívico, onde uma das obras é a que agora abriga o desembargador Renato: a sede do Tribunal de Justiça do Paraná. Estudos acadêmicos estranham como os médicos João Luiz Bettega e Homero de Mello Braga tivessem verbas para combater a peste da tuberculose. É que cunhado e irmãos trabalhavam unidos, com emendas federais que o parlamentar destinava a seu estado, para o bem comum. Mello Braga faleceu em 1979, tendo sido senador de 1962 a 1970, já na época da Ditadura.
Curitibano, avesso a lisonjas, espírito caloroso, o desembargador Renato Braga Bettega chega ao cargo máximo da Magistratura do Paraná aos 68 anos. Assume em uma época em que o Poder Judiciário foi alçado a uma evidência nunca vista. A partir deste dia primeiro ele dirá a que veio.
As observações acima são preciosidades que a jornalista Marilena Wolf de Melo Braga envia à coluna. O senador Rubens de Mello Braga, nome identificador do trabalhismo de Getúlio no Paraná, foi pai de Marilena, a primeira jornalista a trabalhar na cobertura de temas políticos num jornal paranaense, O Estado de Paraná.
