
(Jornal digital Expresso)
Uma das discriminações mais sutis contra a mulher está registrada em carteira: ganhar menos que o homem. Pesquisas recentes, das mais diversas fontes, mostram que as mulheres brasileiras ganham até 23% a menos que os homens, que o problema se estende a todos os estados brasileiros e que a pandemia desacelerou a correção desta desigualdade no Brasil e no mundo. (CNN Brasil, G1, Folha de S.Paulo e DW Brasil).
E como estará a situação em Curitiba? Como sempre, nós d’O Expresso resolvemos vasculhar os dados locais disponíveis, com a ajuda da nossa super analista de dados Caroline Attilio.
• Descobrimos um bom nível de detalhamento na base do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, e resolvemos apurar: afinal, qual a diferença salarial entre homens e mulheres em Curitiba? Em um número: 8%.
Enquanto as mulheres de Curitiba que têm carteira assinada recebem, em valores medianos, R$ 1.380 por mês, os homens ganham R$ 1.500.
• Parece pouco, mas, segundo os dados de março de 2021, este é o segundo maior gap salarial de gênero nas capitais brasileiras – só fica atrás de Belo Horizonte.
Em março deste ano, Curitiba era a segunda capital em desigualdade salarial de gênero no Brasil: só perdia para Belo Horizonte.
A gente detalhou todos os números na nossa página especial Quanto ela ganha, mas deixamos aqui alguns destaques:
• Uma das coisas que mais nos chamou a atenção foi que, quanto mais a mulher estuda, maior a desigualdade salarial: mulheres com mestrado ganham 50% a menos que os homens; mulheres com pós-graduação, 33%.
• A diferença salarial também varia conforme a raça: mulheres indígenas, por exemplo, ganham 18% a menos que os homens; mulheres pretas, 12% a menos.
• No ano da pandemia, a coisa parece ter piorado: o gap salarial de gênero em Curitiba foi de 4,6% para 8% entre março de 2020 e março de 2021.
“A cultura de que a mulher recebe menos precisa ser rompida.
É uma coisa velada, uma preferência machista, baseada nos papéis tradicionais.
Enquanto não houver igualdade nas atividades domésticas, a mulher terá um fator limitador em sua inserção no mercado profissional.” Foi o que nos disse Thereza Cristina Gosdal, desembargadora do TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da 9ª Região e professora de Direito do Trabalho.
Fomos além e perguntamos às nossas entrevistadas: e o que pode ser feito?
A primeira coisa é transparência: em países como Reino Unido e Alemanha, as empresas são obrigadas a publicar dados (não individualizados) sobre a diferença salarial entre homens e mulheres – e, assim, acabam sendo cobradas publicamente para reduzir o gap. (G1 e BBC Brasil)
• Aqui no Brasil, tramita no Congresso um projeto de lei que prevê multa a empresas que cometam discriminação salarial contra mulheres. (Folha)
Outra sugestão unânime é lutar pela igualdade nas atividades domésticas.
Em média, as mulheres brasileiras ainda dedicam o dobro de tempo a serviços domésticos do que os homens.
(iG) Essa “pobreza de tempo”, como afirma a juíza Bárbara Ferrito, faz com que as mulheres se tornem menos disponíveis para o mercado de trabalho.
(Gênero e Número) • “A expectativa de responsabilidade pelas atividades de cuidado recai sobre a mulher.
E isso impacta muito: o emprego, sob essa ótica, vira secundário, e isso restringe a participação da mulher no mercado de trabalho”, resume Carolina de Quadros, advogada, mestra em Direito e especialista em Direito do Trabalho.
