
Um dos olhares mais atentos sobre a história do Norte do Paraná – ao lado de Nilson Monteiro, que também a conhece em detalhes – está Cleto de Assis, intelectual, poeta, precioso artista plástico. Ele viveu muitos anos em Londrina, onde foi braço direito de Oscar Alves, então reitor da UEL. Dirigiu o departamento de Cultura da UEL, assim como dirigiu um jornal de vanguarda e curta duração, o “Novo Jornal”.
OLHAR ATENTO
Olhar atento a captar grandes momentos dos anos 70 e 80 do século passado, em Londrina, Cleto de Assis de lá recolheu histórias pitorescas dos tempos pioneiros da antiga “capital do Café”. Uma delas, remontando aos anos 1950, envolveu o paradigmático padre dominicano belga Louis Joseph Lebret, o fundador da Escola Economia e Humanismo, importantíssima no planejamento humano de vários estados brasileiros. E vital em vários países em desenvolvimento das Américas.
O VOO DAS “P”…
Pois não é que um dia, estando em São Paulo, assessorando o governo Lucas Nogueira Garcez, Lebret teve sua atenção despertada para o Norte do Paraná. E por Londrina, de modo especial, recorda Cleto.
A fama da região e o amplo laboratório de experiências sociais que lá se desenvolviam, levaram o sacerdote-economista e planejador querer visitar Londrina.
– Voo de carreira para Londrina, o padre descobriu, já no aeroporto, só tinha um, semanal.
O desânimo estava abatendo o humanista quando alguém sugeriu: o padre poderia pegar carona “num voo que está saindo daqui a pouco para Londrina”.
NEM DESCONFIOU
Cleto conta que, solícita, a tripulação ofereceu lugar ao sacerdote, já uma personalidade na vida pública paulista de então.
– Embarcou Lebret, sem suspeitar que estava pegando um voo charter, o denominado Voo das P…’, que levava alegres moças da noite para o final de semana em Londrina, onde iriam “alegrar” uma clientela praticamente fixa…
EX-SOLDADO E FRADE
Ex-soldado que combatera na Guerra de 1914 a 1918, o padre dominicano não se surpreendeu com as companhias de viagem. Afinal, deve ter concluído que elas poderiam até ser ponto de referência para obras seminais, que teriam textos seus, como a encíclica “Populorium Progressio”, de Paulo VI.
VITAL NO PDC
Lebret foi vital na montagem do Paraná moderno, cujo grande capitão foi Ney Braga. O padre influenciou ampla geração de intelectuais brasileiros – como Tristão de Athayde e Gustavo Corção – e foi capital para o deslanche do PDC, o antigo (nada a ver com o atual) Partido Democrata Cristão, que depois abrigaria Mário Covas, Franco Montoro, Ney Braga… Lebret morou no Brasil entre 1952 a 58, mas antes viera por várias vezes ao país, para conferências na USP e contatos com intelectuais e políticos.

