sexta-feira, 9 outubro, 2026
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Pragas e fungos podem ameaçar espécies de Pinus no Paraná

Por André Nunes | Fotografias de Marcelo Andrade – No ano que que completa 120 anos no Brasil, o Pinus vem consolidando sua posição estratégica na bioeconomia sustentável da Região Sul – com 89% da área nacional plantada -, em especial do Paraná, que concentra a segunda maior área de Pinus do país, com cerca de 710 mil hectares, segundo dados da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE Florestas). Neste cenário, é preciso cuidado redobrado na prevenção dos principais tipos de pragas e fungos que podem acometer as espécies Pinus taeda e Pinus elliottii.

O Pinus atende a demanda da sociedade por matérias-primas renováveis e a critérios rigorosos de sustentabilidade exigidos tanto pelo mercado, quanto por investidores. A consolidação veio depois de um longo ciclo de pesquisa em adaptação, melhoramento genético e manejo, com as espécies Pinus taeda e Pinus elliottii liderando ganhos de produtividade e qualidade, sobretudo na Região Sul, onde clima e solo favoreceram a cultura. Os três estados juntos respondem por 1,7 milhão de hectares de florestas, de acordo com a APRE Florestas.

Riscos da vespa-da-madeira

Em 2024, uma reportagem de Sergio Santa Rosa para o Jornal da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) revelou que uma fazenda no interior de São Paulo – de uma empresa de comercialização e produção de resinas, que abriga plantações de híbridos de Pinus – registrou em novembro de 2023 alta infestação de vespa-da-madeira, espécie inédita no país, responsável pela mortalidade de aproximadamente 50% das árvores.

Com origem no México e sul dos Estados Unidos, a nova praga é chamada de Sirex obesus, tendo sido identificada pela primeira vez no Brasil pela equipe de pesquisadores Departamento de Proteção Vegetal da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, do qual o engenheiro agrônomo Carlos Frederico Wilcken é professor. Foi ele quem visitou a fazenda citada e fez a descoberta da praga, segundo a reportagem.

“Devido à relevância econômica do Pinus, a descoberta de uma nova espécie de vespa-da-madeira que vem atacando plantações no Estado de São Paulo acendeu um sinal de alerta no setor florestal para o risco real de disseminação para outras áreas e potencial de gerar prejuízos significativos aos produtores. (…) Até o momento, a presença da praga já foi confirmada em 16 municípios paulistas, entre eles Itararé, na divisa com o Paraná. Pesquisadores consideram muito alto o risco dessa nova espécie de vespa-da-madeira se dispersar para o estado vizinho e para a Região Sul. (…) Existe ainda o risco da Sirex obesus chegar a outros países do Mercosul, como Argentina, Chile e Uruguai, importantes produtores de Pinus”, descreve a publicação.

Ainda na reportagem de Santa Rosa, é explicado que o potencial de danos causados pela vespa-da-madeira pode levar à morte das espécies de Pinus, em função da ação do fungo patogênico Amylostereum areolatum. “O fungo é inoculado no momento em que a fêmea do inseto deposita seus ovos no tronco da árvore. O fungo cresce dentro do tronco, matando as células da árvore e bloqueando os traqueídeos, os canais por onde a seiva circula. A árvore morre após três ou quatro meses do ataque do inseto”, detalha.

Fungos causadores de doenças

Pinus acometida por praga. Foto: Marcelo Andrade/ Mural do Paraná

Pesquisas e publicações científicas têm se dedicado, nos últimos anos, a entender melhor o panorama de determinadas espécies de fungos e sua influência potencialmente nociva sobre áreas florestais, em especial o Pinus. É o caso da tese de doutorado “Atividades biológicas e análise química de metabólitos primários e secundários de extratos e isolados do fungo Diplodia piena“, apresentada em 2021 na Universidade Federal do Paraná (UFPR) pela farmacêutica bioquímica Dra. Paula Francislaine Moura, em parceria com a Embrapa Florestas.

O estudo foi motivado pela importância econômica do gênero Pinus para o Brasil e no potencial do fungo Diplodia pinea em causar danos nesse gênero. Este fungo é um patógeno que causa doença em vários gêneros de coníferas e perdas em plantações comerciais de Pinus devido à seca de ponteiros.

“As análises químicas de compostos extraídos de fontes naturais são de extrema importância no campo científico. Os produtos naturais são um amplo reservatório de substâncias com importante atividade farmacológica, como antitumoral, anti-inflamatória e antibiótica. O fungo Diplodia pinea é um fitopatógeno, causador de doenças em coníferas como o Pinus. O objetivo deste estudo foi pesquisar substâncias com potencial aplicabilidade na área humana e agrícola avaliando possíveis atividades biológicas de extratos do fungo”, explica a pesquisadora.

Pinus acometida por praga. Foto: Marcelo Andrade/ Mural do Paraná

Os chamados fungos fitopatogênicos são capazes de colonizar vegetais lesionando diversas partes da planta, como órgãos de reserva, raízes, caule e folhas, podendo levá-las à morte dependendo da extensão da doença, detalha Moura.

“As condições mais favoráveis para que haja infecções ocasionadas por Diplodia pinea são clima úmido e temperaturas altas (igual ou superior a 25 °C), o que coincide com o crescimento dos botões. Esta espécie de fungo é amplamente distribuída pelo mundo, ocorrendo em regiões temperadas, semitropicais e tropicais, podendo contaminar a semente do Pinus. Além de apodrecer a semente, ocorre a redução da germinação, a deterioração de radículas emergentes e o tombamento de plântulas”, alerta.

Alguns anos antes, em 2013, outra tese de doutorado apresentada pela UFPR também se debruçou sobre o assunto. “Caracterização morfofisiológica, patogênica e molecular de isolados de Diplodia pinea“, defendida pela pesquisadora Dra. Paula Rachel Rabelo Correa Basilio, destacou que o fungo Diplodia pinea ainda não têm causado impactos importantes nos plantios comerciais no Brasil, ao contrário do que acontece no exterior.

“Esta espécie de fungo tem demonstrado habilidade em desenvolver linhagens mais agressivas e caso essas linhagens sejam disseminadas existe risco potencial de danos e grande impacto econômico. Este fungo foi classificado em 1992 com alto potencial de dispersão e de risco econômico para os Estados Unidos. Outra situação que causa preocupação é que, em condições de estresse ou associado com outros fungos, o Diplodia pinea agrava ou produz maior dano nas plantas hospedeiras”, descreveu a cientista.

Prevenção e controle biológico

Para ampliar o conhecimento técnico e prático sobre a vespa-da-madeira, a APRE Florestas promoveu em junho do ano passado um curso de controle da vespa-da-madeira, lecionado pelos pesquisadores Susete Penteado e Paulo Pereira, da Embrapa Florestas. O curso abordou estratégias de prevenção, monitoramento e controle biológico.

Segundo especialistas, árvores estressadas são as mais suscetíveis aos ataques. Entre os principais sintomas estão os respingos de resina causados pelas perfurações para a postura de ovos, o amarelamento das copas, orifícios visíveis na casca, manchas azuladas no interior da madeira e galerias provocadas pelas larvas.

É indispensável o manejo adequado na prevenção dos ataques, o que inclui desde a retirada de árvores mortas ou danificadas, até o uso de árvores-armadilha. Além disso, o uso do Nematec (nematoide Deladenus siricidicola), desenvolvido pela Embrapa, é uma das estratégias mais eficazes de controle.

Em relação aos possíveis desdobramentos dos danos gerados por essa nova espécie de vespa-da-madeira, especialistas apontam que o melhor caminho é o de desenvolvimento de políticas públicas, com integração de ações entre as entidades do setor.

Da mesma forma, é essencial o contínuo fomento à ciência e às pesquisas acadêmicas, de universidades ou entidades públicas e privadas, para a descoberta e prevenção de potenciais pragas que possam causar danos maiores às florestas brasileiras.

Pinus, sustentabilidade e indústria madeireira

Além de abastecer diversos segmentos industriais, o setor de Pinus também mantém extensas áreas destinadas à conservação ambiental. Nas empresas associadas à APRE Florestas, a área preservada alcança cerca de 564 mil hectares, demonstrando a coexistência entre produção florestal e proteção dos recursos naturais.

Esta cadeia inclui produção florestal, indústria, pesquisa e fornecedores, com impacto direto sobre a economia de municípios do interior. “O Paraná reúne uma combinação de fatores que poucos estados conseguiram desenvolver ao longo do tempo. O primeiro deles foi a visão de longo prazo, enxergando o potencial deste gênero e investindo continuamente em pesquisa, melhoramento genético e manejo florestal”, afirma Fabio Brun, presidente da APRE Florestas

Segundo ele, o conhecimento acumulado foi construído em parceria entre empresas, produtores rurais, universidades e instituições de pesquisa. Esse processo contribuiu para aumentar a produtividade e formar uma cadeia industrial diversificada, que gera emprego, renda e desenvolvimento regional. “Hoje, praticamente tudo que é produzido na floresta é aproveitado. A madeira abastece os setores de serrados, de painéis, de papel e celulose, de móveis, de construção civil e energia e uma série de outros produtos de maior valor agregado.”

Superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), Paulo Pupo valoriza a inserção gradativa da espécie na cadeia produtiva ao longo dos anos. “Os 120 anos de cultivo do Pinus demonstram como uma matéria-prima florestal pode ser incorporada à economia de forma planejada, gerar conhecimento, tecnologia e se tornar a base de uma cadeia industrial diversificada.”

Pupo acrescenta que a madeira de Pinus é essencial para uma indústria que transforma esse recurso renovável em produtos de maior valor agregado. “Valorizar essa trajetória da espécie no Brasil, também significa reconhecer a importância das florestas plantadas para o abastecimento da indústria e para o desenvolvimento econômico e social do país.”

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