Assessoria – O rim é o órgão com maior demanda por transplantes no Brasil. Atualmente, entre 40 mil e 42 mil pessoas aguardam na fila do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), segundo dados do Ministério da Saúde. A alta demanda tem relação direta com a incidência crescente de doenças crônicas, especialmente a hipertensão arterial e o diabetes, que podem levar à perda progressiva da função renal.
Hoje, cerca de 180 mil brasileiros dependem de terapias renais substitutivas, como a hemodiálise e a diálise peritoneal. Desses pacientes, aproximadamente 92% realizam hemodiálise, procedimento que substitui parte da função dos rins. Para muitos desses pacientes, o transplante representa a principal possibilidade de recuperar a qualidade de vida.
No Paraná, o transplante renal concentra a maior demanda entre os órgãos sólidos, com 2.076 pessoas aguardando por um rim em situação ativa na lista de espera, de acordo com os dados mais recentes da Central Estadual de Transplantes (CET), referentes a janeiro de 2026. O número representa pacientes que já passaram por avaliação médica e estão aptos a receber o órgão assim que surgir um doador compatível.
Doença silenciosa
Um dos grandes desafios da saúde renal é que os danos aos rins costumam ocorrer sem sinais evidentes do corpo. A dor, sintoma que frequentemente leva pacientes a procurar atendimento médico, raramente é um sinal de evolução de uma doença renal crônica. Na maioria dos casos, o diagnóstico ocorre quando o órgão já perdeu totalmente sua função e, quando não tratados, os problemas renais evoluem de forma acelerada.
“A indicação para o transplante ocorre quando o paciente chega à fase de falência da doença renal crônica, também conhecida como estágio 5, momento em que os rins filtram menos de 15% da capacidade normal, ou cerca de 15 mililitros por minuto”, explica Alexandre Bignelli, médico nefrologista e coordenador do Serviço de Transplantes Renais do Hospital Universitário Cajuru, instituição 100% SUS e referência no transplante renal no Paraná.
Doenças que mais levam ao transplante
A doença renal crônica é mais comum entre os mais velhos. Estima-se que cerca de um terço da população idosa brasileira apresente algum estágio da doença. Entre as principais causas estão a hipertensão arterial e o diabetes, que, quando não controlados, podem provocar danos progressivos aos rins.
“Pacientes com pressão arterial alta ou descontrole glicêmico precisam de acompanhamento rigoroso dessas condições. Sem o tratamento adequado, a progressão para a falência renal pode ocorrer”, afirma o especialista.
Outras condições também podem comprometer o funcionamento dos rins, como as glomerulonefrites (inflamações renais), além de doenças hereditárias e genéticas — entre elas, a doença renal policística — e de problemas que dificultam a saída da urina, como refluxo urinário, os cálculos renais ou as doenças da próstata.
O uso indiscriminado de anti-inflamatórios não esteroides, facilmente encontrados em farmácias, também pode causar danos aos rins quando utilizado sem orientação médica.
Como funciona a fila de transplantes
A grande demanda por transplantes renais também está ligada a uma particularidade do órgão: como as pessoas possuem dois rins, é possível que uma pessoa saudável doe um deles em vida, seja para um familiar ou, em alguns casos, para alguém sem parentesco.
Mesmo assim, a distribuição de órgãos segue critérios rigorosos e é organizada por estado pelo Sistema Nacional de Transplantes. “O paciente inscrito na fila de um estado específico não pode concorrer em outro estado. Quando uma família autoriza a doação de órgãos, a seleção considera critérios como tipo sanguíneo, compatibilidade imunológica, sistema HLA e tempo de inscrição na fila”, explica Bignelli.
Crianças, adolescentes e pacientes críticos sem acesso à diálise têm prioridade. A confirmação final ocorre por meio da prova cruzada, um exame que avalia o risco de rejeição do órgão. “O transplante é amplamente considerado o melhor tratamento em comparação com a diálise. Além de aumentar a sobrevida, permite uma reabilitação significativa do paciente”, completa o nefrologista.
Prevenção e conscientização
Evitar a progressão para a insuficiência renal envolve medidas simples, porém constantes: controle do peso corporal, prática de atividades físicas, alimentação com menor consumo de sal e açúcar são atitudes importantes para preservar a saúde dos rins. Evitar a automedicação também é fundamental.
A realização periódica do exame de creatinina é uma forma importante de monitorar a função renal, especialmente entre pessoas com fatores de risco, como hipertensão, diabetes ou histórico familiar da doença.
Outro ponto importante é a doação de órgãos. No Brasil, a autorização para doação após a morte depende da família do paciente. “Uma simples conversa em casa pode ser determinante para aumentar o número de doações no país e transformar o luto em uma nova chance de vida para quem aguarda na fila”, conclui Bignelli.
