domingo, 22 fevereiro, 2026
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“Pentecostalização” do litoral faz Vaticano nomear um administrador especial

Dom Francisco Carlos Bach, bispo de S. José dos Pinhais
Dom Francisco Carlos Bach, bispo de S. José dos Pinhais

Os tempos mudaram muito, em costumes, moral, política, economia e opções que envolvem questões de “eternidade”, como as religiosas. Especialmente a partir dos anos 1980. Esse dado último é notado especialmente em áreas de forte mobilidade social, na América Latina, onde movimentos pentecostais – aglutinados em igrejas ou em movimentos autônomos – vão avançando, retirando da Igreja Católica um “mercado religioso” que ela tinha cativo desde a descoberta do Brasil. Essa fidelidade religiosa que se observava até 30 anos atrás, se explica, pois a Igreja Católica está entre os fundadores da Nação.

O avanço pentecostal começou a ser notado em áreas marcadas por um forte catolicismo popular – caso do Litoral do Paraná – a partir dos anos 1970.

Mas foi nos últimos 15 anos que esse avanço teve características de uma quase “tomada de território” pelas igrejas protestantes não tradicionais, as pentecostais e, particularmente, as neopentecostais.

2 – OS REDENTORISTAS

Brasão do bispo
Brasão do bispo

Por dezenas de anos, no século 20, numerosos padres da congregação de missionários redentoristas, vindos dos Estados Unidos, garantiram uma forte presença e influência do catolicismo no Litoral. Na verdade, os redentoristas, que chegaram a ter dois bispos diocesanos em Paranaguá – e com jurisdição sobre todo o Litoral -, garantiam tudo, do ponto de vista material. Sobrava dinheiro aos missionários de Tio Sam que, assim, se esqueceram de formar uma mentalidade de crescimento das paróquias e comunidades também do ponto de vista financeiro.

“Os americanos nos blindaram contra necessidades e não nos ensinaram a sermos autossuficientes”, diz – sob condição de anonimato – um velho padre, hoje vivendo em casa de repouso.

3 – GANHOS E PERDAS

O resultado desse avanço pentecostal teve aspectos positivos, é certo. O mais visível deles, no reconhecimento mais ou menos geral, foi no âmbito dos costumes com combate sistemático às drogas, ao alcoolismo, ao cigarro, aos festejos “mundanos” regados a aguardente e destilados de todo tipo.

Mas houve perdas, uma das quais, bem evidente, foi o gradual desaparecimento de manifestações culturais típicas do povo caiçara, de que é exemplo a quase invisibilidade, hoje, do fandango. E de festas em que se louvavam o Divino e a santos populares. Essas perdas, geradas a partir de pregações de pastores, têm sido registradas pela academia, com professores universitários sendo responsáveis por trabalhos de pesquisa que as anotam. Um problema de antropologia cultural, enfim.

4 – LUZ VERMELHA

Dança do fandango
Dança do fandango

O sinal mais claro de que a Igreja acendeu luz vermelha no Litoral paranaense está na recente (de semanas atrás) designação, pelo Vaticano, do bispo de São José, dom Francisco Carlos Bach, 61, para exercer as funções de Administrador Apostólico da Diocese de Paranaguá.

Com plenos poderes para comandá-la, sem data definida para retirar-se de lá. Quer dizer: a Bach foi dado todo o poder da Santa Sé para analisar, julgar e agir para revigoramento da Diocese de Paranaguá. Se isso for ainda possível, do ponto de vista de “mercado” católico.

O curioso nessa geografia religiosa é que os redentoristas se empenharam fortemente, enquanto foram controladores das paróquias do Litoral, em fortalecer o Santuário de N.S.do Rocio, padroeira do Paraná que, diante do atual quadro de “pentecostalização” daquela área, deve ter enfraquecido como centro de peregrinação.

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