
Quem tem um primeiro contato com Elson Faxina (na minha opinião, deve ser Fachina, no original italiano), pode até achá-lo “simples demais”, como me observou um colega seu da UFPR, área de Exatas.
Para mim, que conheço Faxina há 35 anos, isso é apenas uma meia verdade, claro que sem excluir o aspecto positivo da simplicidade de sua alma.
É também alguém que mantém fiel ao que pode parecer provinciano.
Esse traço é parte do ethos do acadêmico que o interior do Norte do Paraná nos entregou ao Jornalismo e a vida universitária em Curitiba.
UMA “TRAVESSURA”
O ” provinciano” pode não passar de ‘travessura’ desse professor que teve, nas comunidades de bases da Igreja Católica no Paraná – Curitiba, especialmente -, e no convívio com gente do povo e singulares quadros, como frei Betto, dom Pedro Casaldaliga, padre Yves Pouliquen, Dom Helder Câmara -, seu mestrado e doutorado na herança católica à esquerda, nas CEBs.
Com o tempo, as CEBs foram sendo podadas, afinal, “Roma Locuta Causa Finita”. Mas ele se manteve fiel às linhas mestras de seu espírito.
Mas o porquê de citar “travessura”?
Ora, essa simplicidade de Faxina deve ser parte de um arsenal de enormes, insuspeitados conhecimentos e capacidade de análise do ser especial que habita em Elson.
E é assim que esse “travesso”, de fala mansa, um pouco dialogando no “dialeto ítalo-eclesiástico”, vai mexendo com os espíritos que partilham de seus consistentes conhecimentos.
“OVO DE COLOMBO”
O quê Faxina diz e escreve pode ser encarado até “ovo de Colombo”.
Mas que “ovo” e com que pedagogia ele nos apresenta certas verdades que nos passam despercebidas no dia a dia! E com que sequencial lógico ele vai desfolhando as páginas do século 21, tempo que subleva conhecimentos.
Eu mesmo não deixo de me flexionar a Faxina: interrompo, no final de semana, três leituras que desenvolvo no meu campo preferido – o da antropologia religiosa -, para ler a segunda edição do livro “Midiatização”, da Paulinas, de Elson, coautoria com o professor de Ensino e Pesquisa da Unisinos, Pedro Gilberto Gomes.
Faxina, para mim, foi sempre mais um acadêmico, um “maitre a penser” do que um jornalista profissional, gente como aqueles do universo que vai às ruas, enfrenta tiroteios, entra em favela, aguenta desaforos de políticos, sofre ameaças de policiais e bandidos, pega cadeia, e muitas vezes é morto por causa de seu ofício.
MUITO ALÉM DO “LEAD”
Isso não significa desconhecer sua enorme contribuição, por exemplo, à E.Educativa, a TV Cultura do Paraná. E mais ainda: o quanto tem ajudado, na UFPR, a formar novos jornalistas, um povo que vá além do blá-blá-blá do “lead” e técnicas de bem escrever trazidas pelos americanos a partir do Diário Carioca.
Mas o que a vida de Faxina nos deixa claro é que ele está nesse mundo muito mais para esclarecer do que produzir apurar e escrever notícias. O que é notável, porque suas reflexões valem a pena.
Faxina aceita a Evolução, naturalmente. Mas está preocupado com o tipo de ser humano gestado pelas novas mídias, pelo mundo digital – “diferente do ser humano de ontem”. Isso, diz, porque valoriza as conexões trazidas pelas novas tecnologia: “Elas se tornaram as novas estradas, novos transportes, novas salas de estar, novos bares, novos lugares de reunião, novos espaços de aprendizagem”.
E numa observação ainda mais certeira: “Elas são novos ombros, confessionários e divãs”.
PENSANDO COM OS DEDOS
O PhD Faxina (Unisinos) é mesmo o antropólogo, capaz de esquematizar preciosas etnografias, sei disso há tempos. E por isso considero preciosa a sua afirmação de que estamos diante de um novo homem, novo ser humano, “porque sonha, deseja, pensa e age de forma diferente.”
As lancetas que Elson e seu companheiro de “Midiatização” vão espalhando explodem sem parcimônia na análise desse novo mundo e nova humanidade:
– O processo agora desse ser humano não é mais o do intelectual, para depois ir à prática: É um processo misto, como se pensássemos com os dedos”.
É aquela coisa, se o que fiz não valeu, simplesmente deleto. Refaço quantas vezes necessárias.
“O refazimento é a prática do pensar de hoje”.
Em síntese, a análise de “Midiatização” não deixa de considerar a importância das análises dos meios de comunicação:
Só que adverte: “As tecnologias de comunicação criam novos modos de convivência, de estar juntos, de gostar, de desgostar de curtir e descurtir”…
