A história de Curitiba do século 20 e parte deste século inclui vida e obra desse sacerdote comunicador, surpreendente e inovador. Por quase cinco décadas, é o pároco da Igreja dos Passarinhos.
Padre Gabriel Figura
Costumo dizer que não se conta bem a história da Curitiba do século 20, e principalmente os últimos 20 anos deste, se não enfocar a vida e obra de certas pessoas essenciais.
Assim, é o caso de um dos personagens impostergáveis desse inventário, padre Gabriel Figura, sacerdote do chamado clero diocesano de Curitiba (Esses são os padres formados e pertencentes a uma diocese católica. No caso dele, a Arquidiocese de Curitiba).
Pe. Figura (de ancestrais ucranianos) de muitas formas esteve presente na vida da cidade nos últimos 50 anos. Por vezes, sendo mostrado como benfeitor de obras sociais, e envolvido com os maiores líderes políticos do Estado; outras, até pelo surpreendente de suas propostas, como aquela com que, no começo dos anos 2000, queria fazer um cavalo entrar na nave de sua Igreja dos Passarinhos (oficialmente, Nossa Senhora das Dores) no Bigorrilho.
Afinal, perguntou, se porventura os animais não são também filhos de Deus…?
Chamou São Francisco como sua testemunha…
Aos 74 anos de idade, o padre contabiliza uma história de vida sacerdotal singular: mantém-se por 47 anos na Igreja dos Passarinhos, como coadjutor e na maioria parte desse tempo como pároco – o responsável pela paróquia.
Foram tempos de fazer muitos amigos, de todos os estratos sociais, consolar aflitos, distribuir bênçãos e esperanças, unir irreconciliáveis, fortalecer famílias. Tudo à sua maneira, por vezes não ortodoxa. Mas sempre evangélica e católica. Pode-se discordar do pároco – e ele tem também opositores -, mas ninguém pode questionar sua fidelidade ao Cristo.
É bem verdade que herdou uma comunidade de fé e de vizinhança primeiramente cultivadas por seu antecessor e amigo, o lendário cônego João Augusto Sobrinho, lapeano umbilicalmente ligado a Ney e Guilherme Lacerda Braga, os irmãos que um dia foram vitais para modernizar o Paraná.
A majestosa igreja, em ponto privilegiado do Bigorrilho, ergueu-se a partir de mutirão liderada pelos Braga e envolvendo um sem fim de apoiadores seus.
Gabriel escolheu a linguagem direta para dar seus recados apostólicos: aquela linguagem que não dispensa sujeito, predicado e complemento. Por vezes, sem a certeza de acolhidas unânimes. Mas nunca se preocupou muito com unanimidades, “mas em ser fiel à ordenação presbiterial”, observa o deputado e comunicador Luiz Carlos Martins, que não se cansa de dizer: “Padre Figura tem uma paróquia não visível, enorme e participante”.
Refere-se à enorme audiência da missa das 9 horas de domingo, que a Rádio da Banda B transmite há 23 anos, celebrada por Gabriel.
As homilias de Figura desdobram-se “ad infinitum pelas ondas do rádio”, garante o parlamentar.
Sem mágoas – mas cultivando uma certa saudade do futuro, como dizem certos poetas -, padre Figura não se queixa de ninguém. Mostra-se surpreso quando lhe pergunto se sofreu algum tipo de “perseguição” de superiores.
A resposta é direta: “Nada de perseguição, estou saindo na hora certa, missão cumprida.”
O substituto de padre Gabriel Figura será o padre Edilson Martins, 40 anos, até agora pároco de Campo Magro, que fez estágio com ele, no começo da vida sacerdotal.
A data da despedida está marcada: 9 de agosto de 2020, que também é a do aniversário do sacerdote, que garante estar se retirando “na hora certa”. Mas, para mim, deixa no ar a possibilidade de estar subentendendo algo:
– Deixo a paróquia na hora certa. Nunca escondi nada de ninguém. Saio com dignidade…