
por Antenor Demeterco Jr. (*)
O atual presidente da República Popular da China, o engenheiro químico Xi Jinping (hoje mandatário vitalício), ao assumir a liderança do Partido Comunista, em novembro de 2012, fez expedir o “Documento Número 9”, no qual são enumerados sete perigos que ameaçam o partido reinante: a “democracia ocidental constitucional”, os “valores universais” de direitos humanos e liberdade de imprensa, conceitos “neoliberais” de economia de mercado, e críticas “niilistas” à história partidária.
A inaceitabilidade dos “valores ocidentais” tem ampla aceitação no país (“in” “Folha de São Paulo”, de 21.08.2013). Antigos imperadores tinham a ideia de que a China ocupava o centro da ordem mundial, e que sua ação abarcava dimensões cósmicas, sobre “Tudo que existe sob o céu” (“in” “Ordem Mundial”, p. 215, de Henry Kissinger). Exigiam o ato de ajoelharem-se diante deles e abaixarem a cabeça até tocarem o chão (“kowtow”), em reconhecimento à sua autoridade superior, “senhor de todas as coisas sob o céu ” que se consideravam.
“TUDO SOB O CÉU”
Segundo Henry Kissinger, a nova e atual situação chinesa combina em síntese este legado de “Tudo sob o céu ” com a modernização tecnocrática e a turbulenta busca nacional ao longo do século XX (obra citada p. 222).
Mao Zedong (1893-1976) fundador da moderna China, em 1° de outubro de 1949, proclamou que “O povo chinês se pôs de pé “, e uma “revolução contínua”, condenando, entre outras coisas, as “democracias ocidentais”.
Mao via o evoluir social através de ondas ou “ciclos”, cada onda implicando na onda seguinte, através de acelerações. Os ciclos se desenvolveriam do desequilíbrio para o equilíbrio, e daí novamente para o desequilíbrio. O desequilíbrio seria a normalidade, enquanto o equilíbrio seria temporário e relativo.
Em pleno terreno da loucurada de um indivíduo com poderes absolutos, lançou-se, assim, a China. Se fosse feita uma focagem via teoria da conspiração, é viável concluir-se que a desertificação econômica ora imposta ao mundo seria um ciclo de desequilíbrio a ser sucedido por uma etapa de equilíbrio.
CONCEPÇÃO MAOÍSTA
Zhou Enlai, outro figurão da época, resumiu a concepção maoísta de ordem mundial com uma frase do próprio Mao, invocativa dos imperadores chineses: “Tudo sob o céu está mergulhado no caos, a situação é excelente” (“ibidem” p. 224). Em 2010 apareceu um livro, não atingido por proibições da censura local, “O Sonho Chinês “, do coronel Liu Mingfu, revelando a grande meta nacional chinesa: “Tornar-se o número um do mundo”, restaurando a glória histórica do país em uma versão moderna.
Abrindo caminho para que os produtos, a cultura e os valores chineses determinem o padrão para o mundo. Quando o fundador da China comunista, com apoio soviético desenvolveu seu plano nuclear, foi enfático para seu círculo íntimo em 1955: “Precisamos controlar a Terra” (“in” “Mao a História Desconhecida”, de Jon Halliday e Jung Chang). Parece que as ambições do grande e rico país asiático encontraram uma pedra nos sapatos: o enclave de 1106 km² que a Grã Bretanha plantou em sua franja.
Ali viveu-se o extraordinário valor ocidental da liberdade, que, seguramente, os tanques e o aparato totalitário não conseguirão esmagar.
Hong Kong encabeça a resistência que não apresenta sinais de ceder.
Curitiba Ano do Senhor de 2020, 2 de julho.
(*) ANTENOR DEMETERCO JR, desembargador do TJPR aposentado, advogado, especialista em História do Século 20.
