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OPINIÃO DOS OUTROS: CLUBE AUTORITÁRIO

“PT sacrifica credibilidade de sua pregação por democracia ao endossar ditadores”

Nicolas Maduro

Editorial da Folha de S. Paulo – 04/08/2020

“A certa altura da carta que enviou ao Foro de São Paulo em julho, por ocasião dos 30 anos do grupo, hoje integrado por 123 partidos de esquerda da América Latina e do Caribe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizia: “Mais do que nunca, é o momento de defendermos e recuperarmos a democracia em nossos países”.

O chamado, com algo de desfaçatez, arrastava consigo uma histórica contradição do Foro: discursar a favor dos regimes democráticos enquanto abriga forças autoritárias. O mais recente atestado desse paradoxo materializou-se no debate promovido pela organização em 28 de julho.

O encontro virtual, mediado pela secretária-executiva do grupo, a petista Mônica Valente, teve como seus principais astros os ditadores Nicolás Maduro, da Venezuela, e Daniel Ortega, da Nicarágua, além do líder oficial da ditadura de Cuba, Miguel Díaz-Canel.

Qualquer dúvida que pudesse existir quanto à índole ditatorial de Maduro desapareceu em 2017, com a supressão dos poderes do Legislativo, da repressão aos opositores e do cerceamento da imprensa.

Ex-guerrilheiro, Ortega voltou ao cargo máximo de seu país em 2007, 17 anos depois de ser derrotado nas urnas por Violeta Chamorro. Consolidou-se no posto com mudanças constitucionais, cassações e um pleito marcado por irregularidades em 2016. A exemplo de Maduro, reprime a oposição com brutalidade e persegue a mídia.

Por fim, o Foro está incontornavelmente ligado à ditadura cubana, que dispensa apresentações. Sua origem, recorde-se, em 1990, remonta a uma conversa entre o então ditador Fidel Castro e Lula, que, havia pouco, perdera a disputa presidencial para Fernando Collor.

A despeito de sua relevância duvidosa, o grupo segue sendo visto pelas vertentes direitistas identificadas com o bolsonarismo e o seu principal guru, Olavo de Carvalho, como um perigoso aliado de uma suposta ameaça comunista —e uma justificativa em potencial para pregações autoritárias também do outro polo ideológico.

Entretanto o Foro é coisa mais banal. Trata-se tão somente de um consórcio dedicado à perpetuação de ideias obsoletas e que, sem pejo, mantém suas portas abertas para ditaduras e ditadores.

A opção por se manter parte de tal clube mina a credibilidade da defesa que o PT faz da democracia, respeitada durante os 13 anos de administrações do partido.”

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