Minha pesquisa culminou com o livro da bióloga evolutiva e zoóloga inglesa Allana Collen (10% Humano: Como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente). O intestino seria mesmo um segundo cérebro?

Meu caro Aroldo,
Pertencemos a uma geração surgida dentro de um novo quadro tecnológico, que impulsionou as ciências da saúde como nunca ocorrera antes, em toda a história. Lembro-me que, nos meus oito ou nove anos, fui acometido de um princípio de pneumonia e salvo por um medicamento que surgira anos antes, a penicilina.
COM ANTIBIÓTICOS
Foi a era nascente dos antibióticos, que salvou milhões de vidas, mas também produziu crescentes problemas para a saúde humana. A penicilina de Fleming tem nossa idade: passou a ser usada em 1940, para salvar vidas de soldados norte-americanos que lutaram na segunda guerra mundial.
RETROSPECTO
Em um retrospecto de minha vida, posso afirmar que, dono de um razoável equilíbrio de saúde corporal, somente tive contatos circunstanciais com médicos, longe de obter uma orientação mais adequada e segura para manter esse equilíbrio. Aliás, a nossa educação ocidental somente se preocupa em ensinar às crianças aspectos exteriores ao nosso corpo e pouco esclarece sobre o funcionamento quase mágico da complexa máquina vital que carregamos debaixo de nossa pele.
MINHA VANTAGEM
Depois dos 60 (o que me dá vantagens sobre grande parte da população) é que passei a ser um frequentador mais assíduo dos consultórios, quando apareceram sintomas de clássicas enfermidades que esperam os mais idosos nas esquinas da vida. Glaucoma, diabetes e anemia profunda (esta já superada) foram minhas maiores preocupações, até ser atingido pelo diagnóstico de um carcinoma no intestino, o que me conduziu, pela primeira vez, a um internamento hospitalar mais sério.
TERMINUS?
Concluo, neste momento de minha vida que já se aproxima da Estação Terminus, que somos tratados pelas equipes médicas como cobaias, vistas pelo microscópio dos galenos como portadoras de apenas uma enfermidade, a que nos leva ao consultório quando somos provocados por uma dor. Não foi esta a razão do surgimento e quase cristalização das especialidades médicas? Não somos examinados dentro de uma inteireza clínica, que aprofunde as causas da dor e conduza às verdadeiras razões do desequilíbrio.
MINHA CURIOSIDADE
Há dois anos, quando fui surpreendido pela descoberta do carcinoma, moveu-me a preocupação e a curiosidade por descobrir outras questões relativas à minha enfermidade, já que o próprio médico-cirurgião, a quem muito respeito, não me deu maiores explicações, a não ser as vagas respostas de rotina.
POBRES LEIGOS
Saí em busca de literatura médica à disposição dos pobres leigos e descobri um interessante campo de pesquisa, desenvolvido principalmente nos últimos 20 anos, que demonstra a enorme influência de nossa vida intestinal, notadamente no que se chama de microbiana humano, na manutenção de nossa vida.
TRILHÕES DE MICRÓBIOS
Somos povoados por nada menos que 100 trilhões de micróbios, bandidos e mocinhos, indispensáveis para manter ativas as nossas 10 trilhões de células, por sua vez responsáveis por nos manter em pé e, sempre que possível, saudáveis.
SEGUNDO CÉREBRO
Há cientistas que defendem a ideia de que nosso intestino é o segundo cérebro, enquanto outros vão além, ao afirmar que ele seria o centro da vida, para o bem e para o mal, utilizando o cérebro para dar ordens aos demais órgãos. Um neurologista americano chega a admitir que alguns desvios neurológicos, como o Alzheimer e o autismo, têm origem no desequilíbrio de nossa microbiota. Aliás, já no Séc. III a.C., Hipócrates dizia que «todas as doenças começam no intestino».
10% HUMANO
Minha pesquisa ‒ que ainda não se dá por satisfeita ‒ culminou com o livro da bióloga evolutiva e zoóloga inglesa Allana Collen (10% Humano: Como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente), que melhor esclarece essa interação cérebro-intestino e o equilíbrio de nossa fisiologia.
SEJAMOS ÚTEIS
Talvez, para nossa geração, seja tarde para descobrir novas ideias das ciências médicas, mas podemos ser úteis para as novas gerações, ao auxiliar na sua propagação. É o que tento fazer agora, com este presente natalino. Com meus votos de um Feliz Natal, melhor ano de 2020 e serenidade e qualidade para os anos que ainda nos restam.
Abraço fraterno do Cleto.

