
Por Cleto de Assis (*)
Palavras corretas dirigidas ao bom amigo que nos deixou, Airton Cordeiro, foram grafadas e pronunciadas por Aroldo Murá Haygert em sua coluna e nas exéquias realizadas na tarde de hoje, 28 de novembro.
Corretas e amorosas, uma vez que Aroldo foi um dos mais constantes e fiéis amigos de Airton durante mais de 50 anos. Tive também a honra de compartilhar da amizade de Airton, principalmente em sua vida política.
Lembro-me que, no último governo Ney Braga, com sua voz vibrante ocupando o microfone da Assembleia Legislativa do Paraná, ele assumiu, em um momento politicamente crítico, a defesa da administração estadual e conseguiu amenizar os resultados negativos de uma greve de professores. Como assessor próximo ao governador, levei Airton ao Palácio Iguaçu e ele imediatamente uniu-se ao então Secretário da Educação, Edson Machado de Sousa, para participar das negociações, que alcançaram pleno êxito. Sua principal característica – palavra boa, clara e honesta – foi o instrumento certo para o final da grave.
NA CONSTITUINTE
Mais tarde, com sua eleição para a Câmara dos Deputados, convivemos bastante em Brasília, para onde também me transferi. Iniciados os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, na qual participaram os deputados federais eleitos no ano anterior, Airton, já bastante entusiasmado com a grande oportunidade de aperfeiçoamento político do Brasil, após duas décadas de enclausuramento, em face do regime militar, pediu-me para colaborar com ele e me vi imerso no grande caldeirão em que se converteria o Congresso Nacional para fermentar as mágicas poções da alquimia política, das quais dependiam as esperanças sociais.
O SIGILO DA FONTE
Atuou na Comissão da Organização Eleitoral, Partidária e Garantia das Instituições e da Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos.
Muitas sugestões foram examinadas, mas o deputado Airton Ravaglio Cordeiro, com sua forte couraça de comunicador, dirigia sua atenção para a área da informação e da comunicação, nas quais era mestre. Muitas propostas e emendas foram por ele apresentadas. Vitoriosas, algumas delas constam, até hoje, do texto da Carta Magna brasileira. A principal e pela qual será sempre lembrado, tratou de assegurar a todos o acesso à informação e resguardar o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional, direitos inscritos no Art. 5º, inciso XIV da atual Constituição. Outra, de não menor magnitude, está no § 1º do inciso XXII do Art. 37: “A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”.
“LETRA MORTA”
Aos cidadãos mais novos, é bom lembrar que, antes de 1988, grandes somas dos orçamentos públicos eram dirigidas para fazer luzir a atuação dos governantes, sem preocupação de primeiro informar o contribuinte sobre o destino dos contributos. Lembro-me que, à época da promulgação da Constituição Federal, os áugures do pessimismo faziam chacotas com tal emenda, afirmando-a como letra morta. O tempo demonstrou que estavam errados e a emenda de Airton Cordeiro – da qual também me orgulho, por haver participado em sua redação – é letra vivíssima e já causou punição a muitos gastadores infiéis do dinheiro público.
CANDIDATO A PREFEITO
O ano de 1988 também ficaria gravado na biografia de Airton Cordeiro com mais um importante episódio: sua candidatura à Prefeitura Municipal de Curitiba, pelo Partido da Frente Liberal, liderado, no Paraná, por Ney Braga. Airton saiu como oposição ao candidato de Roberto Requião, Maurício Fruet, ambos do PMDB. Faltando três meses para as eleições, fui convocado pelo governador para auxiliar na campanha. Ainda vivendo em Brasília, vim para Curitiba e assumi a coordenação de propaganda da campanha, principalmente a dirigida pela televisão, e participei, também, dos trabalhos da equipe que estruturava o plano administrativo.
O comportamento de Airton, como candidato, foi exemplar. Jamais vi alguém em situação semelhante que respeitasse tanto as opiniões dos assessores.
EQUIPE EXEMPLAR
A equipe de planejamento fora escolhida com todo o cuidado técnico, escoimadas as vazias promessas populistas que ocorrem em situações análogas. O que estava sendo planejado correspondia, de fato, a necessidades da administração municipal, com soluções criativas que teriam levado a excelentes resultados, se concretizadas. Na rota da campanha, Airton seguia a logística indicada pela assessoria, sem esboçar qualquer sinal de contrariedade ou cansaço. Acostumado, até então, pela política parlamentar, ele definia perfeitas regras do trabalho executivo e teria sido um excelente alcaide curitibano, se eleito fosse. Mas, infelizmente, houve outro “se” que atravessou seu rumo político. Airton ainda não apresentava bons índices nas pesquisas, divididos entre Maurício Fruet (PMDB), Algaci Túlio (PDT), Enéas Faria (PTB) e Claus Germer (PT), mas havia bastante esperança: rumorejavam notícias de que, internamente, o PMDB enfrentava problemas com o seu candidato.
REAPARECE LERNER
Quis, porém, a bola de cristal das eleições que novas luzes cintilassem e interrompessem o destino de todos aqueles candidatos. Há exatas duas semanas da eleição, reapareceu Jaime Lerner, em seu cavalo branco, como pretenso candidato à prefeitura. Evidentemente, o PDT, ao qual também pertencia Lerner, viu como vitória retumbante tal candidatura, uma vez que ela já saíra com boa imagem na administração anterior que comandara.
Algaci Tulio, de pronto, perdeu o posto de candidato preferencial do partido. Já o PFL teve que considerar que Lerner, à época registrado no PDT, tinha sido apoiado por Ney Braga nas duas eleições anteriores em que se elegera prefeito e saíra com boa imagem em ambas as administrações.
GRAVE DECISÃO
A assessoria da campanha de Airton foi convocada para uma surpreendente e grave reunião, na qual o candidato comunicou a decisão do partido em substituir seu nome pelo de Lerner, uma vez que a justiça eleitoral havia concordado com a complexa situação.
Como registrou a Gazeta do Povo, a “candidatura de Jaime Lerner tinha um grande obstáculo: ele havia transferido o domicílio eleitoral para o Rio de Janeiro em 5 de fevereiro, e não o mudou de volta a tempo de registrar a candidatura em Curitiba. A Justiça Eleitoral de primeira instância e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) negaram o retorno do título de Lerner para Curitiba. O recurso apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), entretanto, foi favorável ao pedetista. No dia 1.º de novembro foi definido que Algaci renunciaria da candidatura para ser vice na chapa do novo candidato. No dia 5, foi a vez de Aírton Cordeiro desistir. O último a sucumbir foi Enéas Faria, no dia 7.”
OUTRA DIREÇÃO
Fomos comunicados que até mesmo um ritual para divulgação oficial da renúncia de Airton à candidatura, em favor de Jaime Lerner, já havia sido acordado entre ambos. Em um programa do horário eleitoral os dois candidatos apareceriam, formalizando a troca de candidaturas. Off the record, Airton comunicou que já acertara com o novo candidato acordos políticos, inclusive pela adoção de partes de seu projeto para Curitiba e participação na nova administração.
A história, porém, registrou outra direção. Não houve a transição pública estabelecida pelos candidatos e, uma vez eleito Lerner com 48,5% dos votos contra 29,4% de Fruet, o novo alcaide rapidamente esqueceu os compromissos políticos estabelecidos entre ele e Airton. Acredito que esse desenlace contribuiu grandemente para reduzir as ilusões políticas de Airton e sua próxima candidatura, em 1990, para retornar à Câmara dos Deputados, não foi vitoriosa. O homem público, entretanto, continuou a vestir tal característica, dali em diante, pelos caminhos da comunicação social.
MEMÓRIA PARA O FUTURO
Estas são as memórias que guardo, honrado que fui com sua amizade, de uma pessoa que merece ser considerada como exemplo de homem público. Não são memórias positivas engendradas post mortem – são testemunhos que libero para que as novas gerações, que atravessam um clima de desesperança política, saibam que, nesta terra descoberta por Cabral, é possível existirem políticos honestos. Tomando emprestada a fala poética de Gonçalves Dias, posso afirmar: “Meninos, eu vi!”
(*) CLETO DE ASSIS, graduado em Letras, é artista plástico; foi diretor do Ministério da Educação, governos Collor e Itamar Franco; secretário de Imprensa do segundo governo Ney Braga; nos últimos quatro anos foi secretário geral do Conselho estadual de Educação do Paraná.
