Políticos – sobre a liturgia, a dignidade do cargo e a arte de manter a boca fechada

Por Eloi Zanetti (*)
A história está repleta de ensinamentos de como os políticos deveriam se comportar. Biografias de lideranças e livros de sabedoria na arte de conduzir os assuntos de Estado lotam livrarias e bibliotecas. A arte da política que deveria ser uma causa nobre foge da sua finalidade e frustra o povo, aquele que escolhe quem os deve governar. Falta aos políticos brasileiros, em geral, a boa formação humanística, são raros aqueles bem preparados para os cargos que ocupam, alguns até se vangloriam “de nunca ter lido um livro”.
Muitos chegam aos altos cargos usando da malícia e da esperteza e provocam desastres por onde passam. Por outro lado, possuir formação acadêmica também não é sinal de que alguém será um bom governante. Líderes precisam cercar-se de auxiliares competentes.
CADA MACACO
Juscelino Kubistchek ao formar seus ministérios recebeu a seguinte orientação do José Maria Alkmin: “Para aqueles que trabalharam e o ajudaram a ganhar a eleição arrume alguns cargos, mas para seus ministérios e cargos mais importantes e estratégicos escolha pessoas competentes e bem formadas. Tem gente que serve para ganhar eleição e tem gente que serve para ajudar na administração”.
SOBRE TAGALERICE
O filósofo Plutarco (45 – 120 d.C.) deixou obras fundamentais para o bom entendimento da causa púbica. Escreveu biografias sobre grandes líderes e deixou sábios conselhos aos seus amigos governantes. É dele um livro: “Sobre a Tagarelice” – onde diz que políticos falam demais porque não sabem escutar. Também há um livro, oriundo de uma carta que escreveu ao prefeito de Roma ensinando-o: “Como Tirar proveito dos seus inimigos e Manual do Bajulador.
Trazendo o assunto para perto, lembro de certo senador, já falecido, que falava demais, nas horas, das e para as pessoas erradas. Ele recebeu o seguinte conselho de um amigo: “Fulano! – é melhor você ficar quieto, manter a boca fechada porque no Rio de Janeiro existem seis ruas com nome de ouvidores e nenhuma com nome de falador.” – O conselho não foi atendido e o desastre aconteceu.

SÊNECA: BEM VIVER
Sêneca (1 – 63 d.C.) – filósofo, oriundo de uma família de políticos importantes e de parentes em altos cargos da administração pública, conviveu com vários imperadores romanos. Foi preceptor de Nero, aquele que dizem ter tocado fogo em Roma. Deixou vários livros e ensinamentos uteis sobre a arte da política e do bem viver.
Otaviano Augusto (63 a.C. – 14 d.C.) – primeiro imperador de Roma – ficou 41 anos no poder e fez excelente administrador. Era sobrinho e filho adotivo de Júlio Cesar. Lutou para conquistar seu posto, principalmente contra o poderoso, corrupto e decadente senado romano da época. Cercou-se de poetas, escritores e filósofos, para conversar e ouvir conselhos; principalmente os dos escritores e poetas Virgílio, Horácio e do general Mecenas – cujo nome emprestamos, hoje, para designar a Lei do Mecenato.
COSTUMES, HISTÓRIAS
Aristóteles (384-322 a.C.) Foi conselheiro de Filipe, rei da Macedônia, pai de Alexandre Magno. Mais tarde tutor do mesmo e o acompanhou de longe as suas conquistas territoriais. Foi por orientação sua que Alexandre levou um grupo de escribas e pesquisadores a fim de recolher material de estudos: histórias, costumes dos povos, geografia, geologia, animais e plantas por onde o exército passava. Tudo era classificado e anotado. Esse método, o de recolher, pesquisar e processar informações é que deu origem ao conceito das modernas universidades. Seu livro sobre A Política é referência obrigatória sobre o assunto.
Giulio Mazzarino (1602- 1661) – tutor de Luiz XIV, antes mesmo dele assumir o cargo de imperador. Sua inteligência e habilidade política chamou atenção do Cardeal Richelieu que o indicou como sucessor. Seu livro “Breviário dos políticos” começa assim ‘passos de veludo, simulação e dissimulação”.
LEITURA PREJUDICADA
Nicolau Maquiavel (1369-1527 d.C.) – é talvez um dos mais importantes conselheiros sobre a conquista e a permanência de governantes em seus cargos. Seu livro O Príncipe, mal interpretado por leituras rápidas e sem as devidas reflexões tornou-se sinônimo de “falta de ética” na política.
300 CONSELHOS
300 Conselhos sobre a Sabedoria Mundana – deveria ser o livro de cabeceira de todo político
Baltazar Gracian (1601– 1648 d.C.) padre jesuíta, conselheiro do Exército Espanhol escreveu 300 Conselhos Sobre a Sabedoria Mundana. É um clássico sobre a arte da política e do comportamento humano. Nietzsche assim falou sobre a sua obra: “A Europa nunca produziu nada mais refinado ou complicado em questões de sutileza moral até os dias de hoje”.
FÁBULA EXPLICA POLÍTICA
Uma obra prima da arte da política é o livro árabe em forma de fábula (Século X) – O Leão e o Chacal Mergulhador – traduzido pelo professor da USP, o arabista Mustafa Jared Jaroud. O Leão vê seu reino ameaçado pela presença incômoda de uma hipopótamo e chama o Chacal Mergulhador – ele tem este nome porque mergulhava fundo nos seus pensamentos -, para lhe dar conselhos sobre como administrar a crise. E o Chacal vê-se envolvido com a maledicência dos corruptos e bajuladores da corte. É melhor ler a história.
DONO DO SILÊNCIO
Para os políticos que andam falando demais e com isso tropeçando em suas próprias pernas a máxima árabe acima deveria ser incorporada em seus comportamentos.
(*) ELOI ZANETTI, escritor, publicitário, homem de marketing.
ANOTADO: Eloi me mandou essa oportuna contribuição citando, de passagem, o senador Oriovisto Guimarães, a quem admira muito e respeita especialmente por sua formação em Filosofia.
(AMGH)

