Carlos Alberto Sanches (*)

“Quem conta um conto ganha um ponto”. Esse adágio popular abre uma discussão prazerosa: a definição e origem do conto contemporâneo. De início, é preciso dizer que o conto é um dos gêneros textuais de maior amplitude. Conta-se, na França, que Gustave Flaubert, o grande romancista contemporâneo de Madame Bovary, pergunta ao seu patrício, Guy de Maupassant, contista emérito, qual o melhor conto que ele lera. A resposta vem na hora: – “Sem, dúvida, caro amigo, foi o conto “Angústia”, de Anton Tchekhov”. Essa narrativa curta exibe uma frase bastante insólita na abertura: a quem mesmo, leitor, falaria de minha tristeza? Mas, não nos precipitemos, pois é salutar voltar e repensar as arestas e cavidades da palavra conto. O que é um conto? Suas origens? Os leitores nunca contaram um conto?
Em verdade, ao estudar o termo, é preciso logo acentuar que suas origens se perdem nas idas e vindas do tempo; no limiar da história. Não se pode precisar onde e quando surgiu. Em verdade, ampliando a investigação, chegaremos ao princípio da história da cultura ocidental. Pode parecer estranho, mas o conto nasce, remotamente, com o “homo sapiens”. Primeiro na forma oral e depois na forma escrita. Neste caso, os pesquisadores chegaram até uma narrativa egípcia de há 4.000 AC, chamada de “O Livro Mágico”. A obra está envolta nas brumas das origens. Desde os primeiros tempos, o homem vem “contando” fatos e temas do cotidiano. Como se faz até hoje.
Do ponto de vista puramente literário, essa narrativa curta, está situada em Gêneros Literários, entre o romance e a novela. Desta maneira, estamos a dizer que esse modo de narrar surge com a invenção da escrita. Trata-se da mais curta das narrativas. Difere, no entanto, da novela porque não tem capítulos. Há um só núcleo dramático. Em torno desse núcleo (tema do conto) não surgem capítulos como os dos romances com seus subtemas ou subenredos. O conto se parece com várias outras formas do gênero narrativo. A maioria das narrativas começa com o clássico Era uma vez…
Mas, é hora de voltar ao parágrafo inicial. Lá, estou a contar-lhes uma conversa entre os autores franceses. Maupassant, criador do personagem de horror, Horla, Uma Aventura Parisiense e Outros Contos de Amor, se junta a Flaubert, autor de “Três Contos”. Os dois conversam discretamente sentados à mesa de um café. Falam de Tchekhov. “Realmente, disse Flaubert, o tema é bastante vasto e até disperso”. “Pois, caro amigo, o fato é que esse gênero está bem representado pelo nosso companheiro russo”. (A partir dele e com ele, pode-se inserir Dalton Trevisan, ora recolhido ao claustro da justa fama).
No autor de “O Monge Negro”, podem ser vistas as sombras da cultura milenar russa, em clima denso, brumoso e trágico. Ao fim, constata-se que o russo está entre os maiorais de todos os tempos e o conto Angústia, uma obra prima. “Dalton bebeu na cacimba do russo?” “Certamente”! É bom incluir também o nosso realista, Machado de Assis.
Nessa narrativa curta, “Angústia”, do livro, “A Aposta”, o clima é trágico porque o autor segue a tradição dos outros autores realistas soviéticos, como Dostoievsky. O contista cria, por isso, um apelo profundo de caráter moral que nos angustia e impacta com a historieta de apenas dez páginas.
O protagonista é Jonas Potapof. Ele presta serviços de cocheiro de trenó, na cidade de Moscou. Da primeira linha à última, o infeliz tenta conversar sobre a morte recente do filho, Cosme Jonitch, com os clientes que o abordam, sucessivamente. Foram cinco tentativas. Entre uma corrida e outra, esse homem dilacerado vaga em meio ao populacho e indivíduos de todas as classes. As pessoas estão envolvidas com seus múltiplos afazeres; sofrem, pois, da doença da civilização: a pressa. Ninguém quer ouvi-lo, porque, por certo, todos já têm suas cruzes para suportar. Depois de muitas tentativas abortadas; e com seu desespero aumentando a cada gota azeda de amargura, encerra o expediente e volta para casa. (CONTINUA)
(*) CARLOS ALBERTO SANCHES, professor de Português e de Literatura Portuguesa e Brasileira.
Parte final: Opinião de Valor: tens cavalo e filhos? (final)
