Advogado, publicitário, jornalista, ex-dirigente de clube esportivo (Paraná Clube), vice-presidente da Academia Paranaense de Letras (APL), proferiu uma espécie de aula magistral sobre essa “doença nacional” brasileira que é o futebol. E o fez ao saudar o jornalista especializado em futebol Antonio Carlos Carneiro Neto, que assumiu no final de julho a Cadeira 40 da instituição, em ato no auditório do SESC da Esquina, em Curitiba.
Na substanciosa análise de Ernani, conclui-se que ele enxerga Carneiro não como parte isolada do grande cenário do país, mas parte integrante de realidades erguidas a partir do futebol, bordadas por gente como Mário Filho.
O futebol, na ótica de mestre Ernani, é síntese de nossa civilização. É o que ele mostra num amplo voo de erudição e de acuidade sociológica. Vamos acompanhá-lo:
…”Carneiro escreveu sobre fatos, mitos e homens com seriedade e competência. Sua dedicação às memórias de Hélio Alves, antigo treinador de futebol, à época vivendo seus últimos dias em uma pensão em Curitiba, é comovente. Aceitou transformar o maço de papéis mal escritos, com histórias de uma vida vivida no futebol entre Paranaguá e Curitiba, em um relato bem concatenado, no livro O Feiticeiro do Futebol. Hélio Alves recebeu todos os direitos autorais do livro, sucesso de público em seu lançamento.
Fez o mesmo com Vinícius Coelho, ao escreverem juntos a história dos clássicos Atletiba. A noite de autógrafos foi tão concorrida que me lembro bem: ao chegar ao Passeio Público, local em que se dava o evento, fui obrigado a aguardar no outro lado da Rua Presidente Carlos Cavalcanti, no posto de gasolina ali instalado. Jamais Curitiba havia visto coisa igual.
Em 1996, escrevi a orelha do livro Paraná Clube – O Voo Certo, escrito por ele sob encomenda do próprio clube, do que eu era, então, presidente. O livro saiu em meados do ano seguinte, às vésperas do pentacampeonato. Por aquelas páginas, desfilou sua prosa elegante, descrevendo a história dos tantos clubes que deram origem do Paraná.
Darci Piana, que hoje é o nosso anfitrião, foi testemunha daquela epopeia.
Com Vinícius Coelho escrevemos a seis mãos os Casos e Acasos do Futebol Paranaense, série publicada em fascículos pela Gazeta do Povo. As reuniões de pauta e a editoria ocorriam no meu escritório, em meio ao bom humor e em acordo com o rigor histórico. Infelizmente as reuniões aconteciam pela manhã. Ou seja, sob lei seca.
HISTÓRIA DO ATLÉTICO
Carneiro Neto chega à Academia para substituir um grande amigo, Valério Hoerner Júnior. Fomos bastante próximos, entre 2005, quando entrei nesta Casa até o início de 2012, quando ele acusou a doença que o levaria três anos mais tarde. Foi um excelente cronista das coisas da cidade, um ótimo memorialista dos fatos da PUC PR, um professor de Direito que deixou ao menos uma obra fundamental – Roma, um passeio pelo Direito nos tempos de César.
Ambos se debruçaram sobre a história do Clube Atlético Paranaense, o que mostra a afinidade entre duas personalidades marcantes, a mais jovem talhada para suceder a mais antiga. Duas gerações que viveram momentos épicos, porque o maior esporte do mundo é uma obra épica.
Nelson Rodrigues, com suas imagens, como a grã-fina de narinas de cadáver ou comparando Flamengo e Fluminense aos Irmãos Karamazov ou ainda ao criar a frase definitiva – O FlaFlu nasceu 40 minutos antes do nada –, suas metáforas, como a dos remadores de Benhur, a significar os que suavam o sangue, criou episódios homéricos insuperáveis.
ÉPICO FUTEBOL
O futebol é épico e poético. Bem por isso, terminarei citando o maior poeta da prosa futebolística brasileira, Armando Nogueira:
“Vivi tristezas, vivo alegrias, tenho chorado, já cantei muito, às vezes rezo vendo a bola correr na grande área. Nem mesmo os sentimentos mais subalternos da alma humana – nem deles a grande área do futebol tem me poupado o coração. Já tremi de medo, já odiei, já invejei. A paixão do futebol tem me pesado a vida de tantas emoções que já não tenho o direito de lastimar se um dia a morte me queira surpreender no instante de um gol”.
Antonio Carlos Carneiro Neto, desde agora a Academia Paranaense de Letras passa a ser sua casa, até porque nós o elegemos porque sabíamos, desde sempre, que você era um dos nossos.
Seja bem-vindo. Muito obrigado.”
Opinião de Valor: saudação a Carneiro Neto (parte I)
Opinião de Valor: saudação a Carneiro Neto (parte II)
