Ernani Buchmann, escritor, advogado, publicitário, jornalista, ex-dirigente de clube esportivo (Paraná Clube), vice-presidente da Academia Paranaense de Letras (APL), proferiu uma espécie de aula magistral sobre essa “doença nacional” brasileira que é o futebol. E o fez ao saudar o jornalista especializado em futebol Antonio Carlos Carneiro Neto, que assumiu no final de julho a Cadeira 40 da instituição, em ato no auditório do SESC da Esquina, em Curitiba.
Na substanciosa análise de Ernani, conclui-se que ele enxerga Carneiro não como parte isolada do grande cenário do país, mas parte integrante de realidades erguidas a partir do futebol, bordadas por gente como Mário Filho.
O futebol, na ótica de mestre Ernani, é síntese de nossa civilização. É o que ele mostra num amplo voo de erudição e de acuidade sociológica. Vamos acompanhá-lo, na segunda parte do discurso:
Gabo tratou de chamar de loucos os que foram gritar de sincero entusiasmo nas arquibancadas, como se diante de um poema de Rilke ou um romance de Willian Faulkner.
FUTEBOL DOS 1950
Nada disso assustou o garoto Antonio Carlos. Ele tratou de embrenhar-se pelo futebol na década de 50, em Guarapuava. Ali, no infantil do Grêmio Oeste, batendo-se contra Guarapuava, Batel e outros times locais, solidificou seu amor pelo esporte. Inteligente, curioso, queria saber tudo. São razões suficientes para que se possa dizer que Carneiro Neto é filho do Dr. Armando e de D. Josephina, mas também de Jorge Cury, Antonio Cordeiro, Edson Leite, Pedro Luiz, Fiori Gigliotti, Waldir Amaral.
Nosso personagem iria completar dez anos quando o futebol explodiu o Brasil de alegria. Vamos a Estocolmo, na Suécia, em 29 de junho de 1958, na voz de um de seus pais esportivos, o grande Edson Leite.
(a plateia ouve um gol de Pelé no jogo Brasil x Suécia, na decisão da Copa do Mundo).
Quando a família mudou-se para Ponta Grossa, o garoto precisou escolher entre Guarany e Operário. Ficou com o Guarani, rubro-negro, sina de cores que o perseguiria pelo restante da vida, ao torcer declarada e apaixonadamente pelo Atlético Paranaense, e a ter simpatia por tantos outros clubes riscados de vermelho e preto, como o italiano Milan. Nem poderia ser diferente: as origens das famílias Basso e Carneiro remontam à antiga aristocracia paranaense, torcedora do Atlético. Ao Coritiba estava ligada a burguesia surgida da imigração, com alemães, poloneses, ucranianos e italianos formando sua torcida, por isso mesmo chamada de coxa-branca. Ao Ferroviário cabiam aqueles ligados à Rede Ferroviária e à população mais simples.
DONO DA MEMÓRIA
Na adolescência, Carneiro já mostrava a aptidão pelos casos futebolísticos que iria contar vida afora, nas colunas dos jornais.
Demonstrou sua excepcional memória em casos como este, falando do craque que seu pai não foi, publicado no livro Efabulativos do Futebol, de 2003.
“Quando se formou a primeira turma da Faculdade de Direito de Ponta Grossa, realizou-se um jogo de futebol, seguido de churrascada, entre os professores e os formandos. Meu pai era juiz e professor de Direito Civil da faculdade, convidado e escalado para jogar. Como sua intimidade com a bola não ia além das arquibancadas, aceitou assistir ao jogo e esperar pelo churrasco. Acontece que um aluno da turma que se formava, o já falecido Wallace Pina, proprietário da Rádio Difusora de Ponta Grossa, resolveu fazer com que sua emissora transmitisse a partida histórica.
Para evitar maiores atropelos ao narrador, antecipou-lhe as escalações das equipes, com o nome do meu pai ao lado de Wilson Comel, Fernando Fowler, Ari Ayres de Mello e outros professores.
Na hora do jogo, convidaram o bedel da faculdade, Oscar Correia, titular do time profissional do Guarany, para substituir meu pai. Começou o jogo e o narrador transmitiu a partir dos nomes e números da escalação original. Foi uma festa bonita. Alguns dias depois, atendendo no fórum a um advogado de Castro, meu pai recebeu um elogio desconcertante:
“Parabéns, doutor. Ouvi o jogo e fiquei impressionado. Não sabia que além de juiz e professor o senhor lança bolas em profundidade, dribla, bate escanteio, dá bicicleta e marca gol de cabeça”.
REPÓRTER ESPORTIVO
A família Carneiro chegou a Curitiba em meados dos anos 60, com Antonio Carlos já repórter esportivo e já Carneiro Neto. Já estavam aposentados os craques do Furacão, campeão paranaense de 1949 quase invicto: perderam de 2 x 0 para o Ferroviário, na última rodada do campeonato.
O Atlético de tantas glórias e tantas lendas, uma das quais perdemos ontem: o doutor Júlio Gomel, amigo de todos os curitibanos, ex-diretor, médico e conselheiro atleticano que torcia por dois times, Atlético e Fluminense. Resolveu morrer em um domingo, dia de Atlético x Fluminense na Arena da Baixada.
O período romântico de Guarapuava e Ponta Grossa e o mundo mais competitivo em Curitiba serviu para Carneiro Neto aprimorar suas qualidades de homem de cultura. Seguiu a máxima de Nelson Rodrigues, segundo quem “a burrice não dorme e repito: a burrice é uma eterna vigília”.
COLECIONADOR DE AMIGOS
Mais que um futebolista, tornou-se um intelectual. Um colecionador de amigos e de turmas variadas. Farei uma digressão: é digna do livro Guinness dos recordes o número de grupos diferentes de amigos que ele frequenta. Há os que caminham cedo pelo Parque Barigui, os que jantam nas segundas e quartas-feiras, os que almoçam na quinta, os de Ponta Grossa e assim por diante.
No muito antigo ano de 1971, fui contratado como repórter por Ayrton Cordeiro, diretor de esportes e principal narrador da Rádio Clube Paranaense. Carneiro Neto já era então o segundo na hierarquia, em uma equipe privilegiada, por conter nomes como Luiz Augusto Xavier, Marcus Aurélio de Castro, Dias Lopes, Carlos Marassi, Jota Pedro e Wilson Brustolim.
Para isso, estudou e leu o suficiente para que o professor Aroldo Murá, guardião biográfico das personalidades da vida paranaense, a ele assim se referisse, no primeiro volume dos seus Vozes do Paraná:
“Discorre sobre El Cid com o mesmo entusiasmo com que se embrenha nos episódios mais fascinantes da Segunda Grande Guerra, incansavelmente pesquisados. A ponto de ter ido in loco conhecer os espaços do desembarque aliado na Normandia. Ou visitado o submarino Arizona, em Pearl Harbour, cujo ataque detonou a reação americana. E de ter igualmente…”
Ao microfone, era fiel aos fatos, sem jamais esconder um certo tom de ironia na voz. Ao contrário de Nelson Rodrigues, que recriava o jogo, indiferente à realidade, Carneiro sempre tratou todos os times como iguais, embora o Atlético fosse mais igual que os outros, à moda de George Orwell.
Mas se é filho radiofônico de grandes locutores, é irmão literário de autores como os já citados Mário Filho, Nelson Rodrigues, Eduardo Galeano e Gabriel García Márquez. Incluo outros: João Saldanha, João Cabral de Melo Neto, Ruy Castro, o paraguaio Augusto Roa Bastos, autor de O Eu Supremo, o argentino Roberto Fontanarrosa, o uruguaio Mario Benedetti e o também argentino Osvaldo Soriano, autor de El penal más largo del mundo, o mais brilhante conto da literatura futebolística já escrito.
“VOZES DO PARANÁ”
Para isso, estudou e leu o suficiente para que o professor Aroldo Murá, guardião biográfico das personalidades da vida paranaense, a ele assim se referisse, no primeiro volume dos seus Vozes do Paraná:
“Discorre sobre El Cid com o mesmo entusiasmo com que se embrenha nos episódios mais fascinantes da Segunda Grande Guerra, incansavelmente pesquisados. A ponto de ter ido in loco conhecer os espaços do desembarque aliado na Normandia. Ou visitado o submarino Arizona, em Pearl Harbour, cujo ataque detonou a reação americana. E de ter igualmente conferido, com minuciosa e redobrada atenção, o refúgio estratégico em que Churchill se abrigou no complexo de Whitehall, quatro metros abaixo da terra, em Londres, para planejar os grandes lances bélicos contra o Eixo. Ali, Carneiro conta com orgulho, viu o mapa mundi sobre escrivaninha de Churchill assinalado com os três pontos de interesse dos Aliados num eventual desembarque no estado do Paraná: a baía de Guaratuba, Paranaguá e o aeroporto Afonso Pena”.
Nosso incomparável professor Aroldo – professor de jornalismo e de humanismo – ressalta que Carneiro Neto estuda a corte de Luiz XIV ou a vida de Santo Agostinho não à busca de refinamentos, mas como exercício essencial para a profissão.
(PROSSEGUE)
