Três experientes mestres paranaenses falam sobre os desafios educacionais em conferência realizada pelo Instituto Ciência e Fé de Curitiba
Por André Nunes*
Realizada pelo Instituto Ciência e Fé de Curitiba no último dia 18 de junho, a conferência “Desafios na Educação: dos 8 aos 80 anos” reuniu no Studium Theologicum três grandes mestres paranaenses, referências em suas áreas de atuação. O debate, que reuniu cerca de 40 pessoas, contou ainda com comentários e participações dos médicos Cícero Urban e Raul Anselmi, e do político Euclides Scalco, todos membros do Instituto, e de convidados como José Lúcio Glomb, ex-presidente da OAB-PR.
A seguir, algumas das principais considerações dos professores presentes na conferência: Vera Miraglia, Fernando Pichet e Hélio Puglielli.
2 – Vera Miraglia: educação para formar crianças felizes.
Aos 82 anos, a carioca fundadora do colégio Anjo da Guarda, referência na educação infantil de Curitiba há 50 anos, destacou o lema da escola como linha guia da atuação de seus professores: “eu sou alguém, respeito os outros e quero que me respeitem”.
“Acreditamos que essa é uma linha importante para nossos alunos levarem para a vida. A única coisa que não tiram da gente é o estudo. O estudo e o trabalho a gente pode passar para os alunos pelo exemplo. A parte de aprendizado eles nos ensinam. Se a gente trabalha e se lamenta todo tempo, isso não é bom para o aluno. A lamentação não leva a nada. A desvalorização do trabalho doméstico, com a ideia de que o trabalho que vale é aquele fora de casa, também não forma ninguém. Todos os trabalhos bem feitos, com esforço, são uma alegria, importantes para as pessoas serem úteis”, pontua.
“Nesse caminho, o aluno está conseguindo vitórias, que são mais importantes do que aquelas que as pessoas acham fantásticas. O que eu estou mostrando são pontos para fazer as pessoas felizes. Enfrentar as dificuldades é preciso, já que não podemos viver sem elas. A família e os professores podem fazer alunos alegres, felizes e, acima de tudo, responsáveis e esforçados. A responsabilidade é uma coisa importantíssima.
O que importa não é só a resposta certa, é o caminho que se percorre até lá”, considera Vera Miraglia.
3 – Fernando Pichet: visão crítica do ensino superior Médico e professor universitário.
Fernando Pichet, 75 anos, lecionou durante 48 anos entre a UFPR e a PUC-PR. Nesse período, que abrange mais de três gerações, “mudou muito a escola”, segundo ele.
“A graduação hoje está ruim. A culpa não é do estudante, é da faculdade.
Nós somos só obrigados pela lei a nos graduar, não há a necessidade legal de uma pós-graduação. Gosto sempre de passar isso aos alunos de Direito e Medicina, já que esse cenário parece um estelionato: oferecemos uma coisa e entregamos outra. Isso não só no Brasil. Saiu recentemente, na Itália, que os alunos se formam em Direito sem saber escrever! A graduação vai mal. Estudante de Medicina do 10º período não está na enfermaria, no ambulatório, no centro cirúrgico… Estão aprendendo em bonecos! ”, critica.
“Antigamente, a gente aprendia na família, na escola e na igreja. A família era mais exigente, na escola se obedecia a todos, com uma exigência que não permitia indisciplina. E na igreja, não importa se Católica ou Protestante, se aprendia também. Hoje, não se aprende mais na família, que está indo “pro brejo”. Vejo casos de mães que dão anticoncepcional para a filha de 12 anos “para não se incomodar”. Na escola, local de se aprender, batem e matam professores. Os pais não podem mais reclamar. E a igreja que, na minha visão, não sabe o que fazer neste cenário. Então não se aprende nem na família, nem na escola, nem na igreja”, sentencia Pichet.
Nesse cenário, qual o estímulo para se tornar professor universitário?
Para o professor de Medicina Legal – um dos sete que lecionam a disciplina em todo o Paraná – falar sobre o ensino superior é muito complicado.
“Hoje, só dou aulas porque sou convidado, e porque minha cadeira de Medicina Legal não tem mais professores, isso que ainda é disciplina obrigatória para diploma”.
Para concluir, Pichet cita uma frase que aprendeu no Exército: “É fácil a missão de comandar homens livres. Basta apontar-lhes o caminho do dever”.
4 – Hélio Puglielli: dilemas na educação a partir da síntese jornalística.
Jornalista atuante desde 1957, quando começou a trabalhar aos 18 anos, o professor Hélio de Freitas Puglielli é aposentado da UFPR, onde lecionou por 26 anos, além de 10 anos na PUC-PR. Sobre os dilemas e problemas da educação, a síntese da conferência “cabe como uma luva” nas célebres perguntas que os jornalistas têm que tentar responder a cada notícia: o quê, quem, quando, onde, como por que, e com que consequência?
“O que precisamos ensinar? Quais conteúdos para o aluno aprender? O que ele gosta, de certo, mas este é um dilema da educação. Muitas vezes eles não estão dispostos nem interessados no conteúdo programático. Quem? Nós, professores, e os alunos. A conexão do que se ensina para quem ensinamos, algo que precisa ser equilibrado para que a educação possa surtir efeito”, afirma Puglielli.
“Quando? A professora Vera lida com crianças, eu e o professor Pichet lidamos com adultos, são experiências diferentes. Quando, neste caso, se refere ao momento em que se deve ensinar, ou deixar de ensinar, determinado conteúdo. Onde? Qual o lócus da educação? Teoricamente, em qualquer lugar, mas sabemos que determinados conteúdos especializados necessitam de equipamentos e laboratórios. Mas este “onde” não me parece decisivo nesta lista: aprende-se em qualquer lugar”, considera.
“Como? Um ponto nevrálgico da educação, em que está em jogo a didática. É muita pretensão daqueles que julgam ter a forma certa de se ensinar.
Tivemos vários professores, teóricos, cada um com sua visão, mas não existe uma fórmula. Existem mil processos, às vezes dá certo com uma turma e não com outra. Por que? Educamos principalmente para que a pessoa tome consciência de sua identidade, saiba quem é. O grande drama dos tempos modernos, que o colega Pichet pintou com pinceladas escuras, decorre deste fato: as pessoas estão flutuando no mar da existência sem saber seu papel no mundo. Todos nós queremos ser felizes, como bem disse a professora Vera”.
Por fim, com que consequências? “A consequência fundamental da educação deveria ser a formação integral do ser humano, que abrange inclusive a formação religiosa do cidadão”, finaliza o jornalista.
*André Nunes é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com passagem pela Université Stendhal de Grenoble, na França. Colaborador do Instituto Ciência e Fé e da coleção “Vozes do Paraná”, é analista de comunicação na agência NQM Comunicação.
