
A China já intensificou os controles alfandegários e pediu mais cooperação às instituições financeiras, mas, apesar dos esforços, o fenômeno está longe de ser erradicado, pela dificuldade de detectar essas operações fraudulentas.
As saídas de capital desvalorizam a moeda chinesa, o yuan, o que, por sua vez, aumenta o volume de fugas. As autoridades têm tentado compensar essa queda com grandes compras de moeda local, utilizando recursos de suas enormes reservas de divisas. No ano passado, a China gastou alguns 2,21 bilhões de reais de suas reservas cambiais para sustentar a moeda. Apesar de ser a maior queda da história, o gigante asiático ainda conta com 12,4 trilhões de reais em reservas, ainda muito distantes dos 4,8 trilhões dos japoneses.
No entanto, a possibilidade de que a China não queira continuar gastando suas economias nem permitir que sua moeda continue a perder valor desperta temores de que o Governo torne mais rígidos os controles de capital. O atual presidente do Banco Central chinês, Zhou Xiaochuan — que tem conduzido os maiores avanços na abertura da conta de capital —, descartou essa possibilidade em uma entrevista recente. “Ao ser uma economia grande e aberta, a China é mais dependente do comércio do que outras grandes economias. Qualquer controle inapropriado causaria problemas e perturbaria a economia real e o comércio, o que poderia minar a confiança e o sistema de pagamentos internacionais”, disse à revista de economia Caixin.
“As saídas de capital desvalorizam a moeda chinesa, o yuan, o que, por sua vez, aumenta o volume de fugas. As autoridades têm tentado compensar essa queda com grandes compras”
Especialistas não esperam uma resposta que poderia ser interpretada como um passo atrás no processo de liberalização, e sim pequenos ajustes para reduzir a saída de capitais (já foi limitada, por exemplo, a compra de seguros em moeda estrangeira) e, especialmente, mais esforço na luta contra irregularidades. A chefe da casa de chá, no entanto, está mais preocupada com o que poderia acontecer com seu cliente do que com ela:
“Temos tudo sob controle. Quem deve ser cuidadoso é você, porque o ingresso de um montante tão elevado pode causar problemas em seu país, e isso já não é da nossa conta”, na Europa, nos Estados Unidos ou onde for.
“Fazemos isso diariamente, e com cifras muito mais altas. Não há perigo nenhum”, argumenta. Isso apesar de as autoridades chinesas tentarem há mais de um ano coibir essas práticas clandestinas, através das quais os cidadãos chineses tiram bilhões de yuans do país, num momento em que a economia está em desaceleração, a moeda se desvaloriza e há lugares melhores onde investir.
“Temos tudo sob controle. Quem deve ser cuidadoso é você, porque o ingresso de um montante tão elevado pode causar problemas em seu país, e isso já não é da nossa conta”.
A China controla as movimentações financeiras para evitar entradas e saídas especulativas que possam desestabilizar sua economia. Pessoas físicas só podem tirar do país um máximo de 50.000 dólares por ano (207.000 reais), mas os chineses encontraram outras vias para burlar esse limite, algumas num limbo jurídico, outras claramente ilegais – como a da casa de chá.
Grande parte do dinheiro que sai da China usa canais legais.
Com a abertura do gigante asiático ao mundo, há cada vez mais turistas que visitam outros países, mais estudantes de intercâmbio em universidade e mais compras de moradias no exterior. E há as empresas, que mais do que nunca, investem e compram fora da China. Uma aquisição inferior a um bilhão de dólares não precisa de permissões das autoridades nem será objeto de escrutínio, porque Pequim quer que as empresas chinesas se tornem globais. Além disso, as companhias com operações no exterior são livres para vender yuanes e comprar divisas estrangeiras se entenderem que esse movimento pode beneficiá-las no futuro, como acontece desde meados de 2014, e também para pagar dívidas contraídas em dólares.
Há outras opções de legalidade duvidosa, mas que não são proibidas. A mais habitual é que um cidadão chinês que queira tirar dinheiro reúna parentes, amigos ou funcionários para que cada um envie os 50.000 dólares permitidos. Com 20 pessoas, por exemplo, pode-se transferir um milhão de dólares anualmente.
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