Por Antenor Demeterco Junior

Não é fácil resumir as grandes lições que o escritor ucraniano Vassili Grossman (1905-1964) fez nascer dos tempos sombrios e do ventre do monstro em que viveu.
Seu livro “Vida e destino” ultimado em 1960 e que só foi publicado em 1980, é um romance fincado em fatos históricos, pleno de diálogos fictícios e de verdades contestatórias subjacentes.
Mostra que o século de Einstein e Planck foi o de Adolf Hitler, que o Renascimento Científico e a gestapo surgiram na mesma época.
E as semelhanças terríveis entre o princípio do fascismo e o princípio da física contemporânea.
O primeiro rejeitou o conceito de individualidade, o conceito de “homem”, e opera com enormes conjuntos.
Já a física contemporânea fala de probabilidades maiores ou menores de fenômenos nesse ou naquele conjunto de indivíduos físicos.
O fascismo aniquilou conglomerados nacionais e raciais baseado na probabilidade de uma resistência oculta ou aberta dos mesmos.
Nos campos de concentração foram internados “criminosos que não tinham cometido um crime”, culpados não pelo que tinham feito, mas pelo que poderiam fazer.
Ladrões e arrombadores se transformaram em privilegiados, pois eram usados para vigiar os demais.
Hitler com seus campos de extermínio e de concentração fez deles as cidades da Nova Europa.
A pergunta referente à perda ou não da aspiração à liberdade pelo ser humano tem como sua resposta o destino do homem e do Estado totalitário.
As grandes rebeliões em guetos com o de Varsóvia, os movimentos guerrilheiros nos países ocupados por Hitler, às rebeliões pós-stalinistas de Berlim (1953) e da Hungria (1956) etc., mostrou como a aspiração à liberdade é inerente ao ser humano, e, por isso indestrutível.
Pode ser reprimida, mas não exterminada.
O totalitarismo não pode renunciar à violência, e o homem não pode renunciar à liberdade de boa vontade.
Esta conclusão, para o autor Vassili, é a luz do nosso tempo, a luz do futuro.
Stalin liquidou a liberdade do camponês de semear e vender, e não vacilou: liquidou milhões de camponeses.
Hitler viu que o nacionalismo alemão era estorvado por um inimigo, o judeu. E decidiu liquidar milhões de judeus.
Com a fragmentação do bem, nasceu o bem dos círculos, das seitas, das raças, das classes, e ninguém que estivesse fora do círculo fechado fazia parte do grupo do bem.
Daí o derramamento de sangue em nome desses pequenos bens, pois às vezes o próprio conceito desse bem se tornava um flagelo de vida, um mal maior do que o mal.
Vassili assistiu em seu país a força da ideia do bem comum (comunismo), que resultou no extermínio de pessoas, em aldeias morrendo de fome, em crianças e camponeses morrendo na neve da Sibéria, em trens levando para a Sibéria centenas de milhares de homens e mulheres de todas as cidades da Rússia, declaradas inimigas do bem comum.
E presenciou o horror do fascismo germânico, que cobriu os céus com a fumaça dos fornos crematórios.
Os diversos tipos de antissemitismo são descritos com brilhantismo.
É ele a expressão e a medida da mediocridade humana, da incapacidade de vencer na luta pela vida em desigualdade de condições, em todos os lugares: na ciência, nos negócios, nos ofícios, na pintura.
E testemunhou que no mundo existem tolos, invejosos e fracassados.
Nos países totalitários, onde não existe sociedade, o antissemitismo pode ser estatal.
E aí o Estado tenta se apoiar nos tolos, nos reacionários, nas trevas da superstição e na raiva dos famintos.
As lições de “Vida e destino” são atuais, e os ventos vindos do Oriente Médio comprovam esta atualidade.
Foram escritas por quem viveu as grandes tragédias do século XX, destiladas das ideologias totalitárias que configuram a época em que o autor viveu.
