sexta-feira, 24 abril, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: Livro de Szpilman justifica olhar crítico

96-antenor-demeterco-jr-v5Antenor Demeterco Junior (*)

O atento leitor e analista de obras históricas, especialmente as que tratam da História do Século 20, o desembargador (emérito) Antenor Demeterco não se conteve depois da leitura do livro “Judeus – suas extraordinárias histórias”, de Marcelo Szpilman.
E em seguida mandou ao autor uma sintética carta, com observações importantíssimas, reveladoras de alguns descuidos no conteúdo do livro.
Na carta, por fim, Demeterco termina por sugerir ao escritor que se assessore de um historiador, para elaborar eventual nova edição do livro. Eis a correspondência:

“Meu caro Marcelo Szpilman

Li seu livro “Judeus – suas extraordinárias histórias” atentamente e confesso que admirei o mesmo.

Trabalho notável, correlacionando momentos da história universal a momentos da caminhada várias vezes milenar do Povo Judeu.

Marcelo Spilzman
Marcelo Spilzman

Embora não seja historiador, tomo a liberdade de sugerir especial atenção ao que consta às páginas 174, 180, 181, 194, 203, 211, 214, 229, 249 e 281 de seu trabalho.

Algumas destas passagens merecem confirmação com rigorismo histórico, para que seu livro tenha o peso e credibilidade que merece.

Ernesto Renan, já no séc. XIX, em sua monumental obra “Origens do Cristianismo” (que lembro vagamente de ter lido) noticiou que o Povo Judeu foi o primeiro a vincular sua história à história da Humanidade.

Daí a importância do seu livro, ao relatar minuciosamente esta conexão.

Esclareça-se que na p. 174 é mencionado que o Czar Nicolau II deu ordem para dispararem contra o povo.

Nicolau, ao que consta, sequer estava no palácio na ocasião.

As ideias de Hitler, até hoje sem explicações quanto à origem, ao contrário do afirmado, não vieram de seu pai, burocrata violento e alcoólatra, mas possivelmente de sua existência frustrada em Viena.

Fanático, o futuro ditador viu na Guerra Mundial sua libertação, e teve empenho no fronte como mensageiro sob fogo, ao contrário do afirmado (p. 181).

O POGROM

Quanto à p. 194, o incêndio do parlamento alemão foi aproveitado pelo governo nazista para impor leis duras, mas tal acontecimento continua obscuro, tendo sua origem na ação de um comunista holandês dissidente, um tal de Marinus van der Lubbe (1909-1934).

O pogrom de 09/11/1938 parece que não foi organizado pelos nazistas, mas aproveitado por eles, que deixaram a turba vingativa saciar sua sanguinolência.

A polícia permaneceu de braços cruzados enquanto a violência correu solta (cf. “Adolf Hitler”, v. II, p. 605-606, de John Toland).

Resultado: danos em 814 lojas, 171 residências, 191 sinagogas incendiadas, 39 judeus assassinados.

Telex do terrível policial Heydrich aos quarteis determinou cooperação “em organizar manifestações”.

A Igreja Católica, ao contrário do que consta na p. 211, não protestou contra matança de judeus, mas sim contra o “Programa de Eutanásia de Adultos” (Aktion T4), dirigido a alemães com doenças incuráveis.

Hitler não pediu que colocassem a mala do outro lado da sala, mala esta com a bomba para matá-lo.

Por acaso foi deslocada, salvando-o do atentado (p. 229).

A Alemanha derrotada foi dividida em quatro zonas de ocupação, e não apenas em duas como constou na p. 249.

OS NOVE ATLETAS

Os nove atletas israelenses possivelmente não morreram algemados no atentado de Munique (1972) realizado pela organização “setembro negro” (formada por membros do radicalismo islâmico).

As sugestões que ora lhe encaminho, meu caro autor, resumem-se a uma única: seria interessante que um historiador revisasse seu livro para segunda edição.

O material informativo apresentado é notável, e demonstra um minucioso trabalho de pesquisa, que merece leitura e ampla divulgação. Saudações, Antenor Demeterco Junior”.

(*) Antenor Demeterco Junior é desembargador emérito do TJ-PR
e pesquisador de temas da História do Século 20.

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