sábado, 18 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: HISTÓRIAS NÃO CONTADAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Cícero de Andrade Urban : a ética do cuidado.

Por Cícero de Andrade Urban (*)

As grandes questões, que precisamos tentar responder em tempos difíceis como este que estamos vivendo, estão relacionadas a quem tomará conta de nós neste momento: a ciência, a religião ou o governo – ou todos? Quais os valores que não poderemos abrir mão e, afinal, o que é mesmo prioridade? Estamos sim, em meio a uma pandemia sem precedentes, mas quais os limites reais desta crise? Existe, de fato, uma hora certa para iniciarmos as medidas restritivas? E, finalmente, o que ficará depois que isso tudo passar?

 

DESASTRE BIOLÓGICO

“Desastre”, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, “trata-se de uma alteração de forma súbita de pessoas, de seu meio ambiente, ou de seus bens, causada por fatores externos de origem natural ou causado pela ação humana e que demanda uma ação imediata por parte das autoridades de saúde, visando à diminuição das consequências do mesmo”.

Diante desta definição, estamos sim, enfrentando, de certa forma, um “desastre biológico”. Um vírus novo, com um potencial de infectar um grande número de pessoas rapidamente, e que foi subestimado na sua fase inicial. O custo está sendo muito alto onde isto já ocorreu. A China, a Itália e o Irã estão vivenciando o resultado disso. A letalidade, que é a razão entre o número de óbitos e o número de doentes infectados, felizmente, é baixa. Porém, considerando a velocidade de disseminação e as necessidades de leitos de UTI, precisamos de medidas preventivas para contenção da sua disseminação.

 

CIÊNCIA, RELIGIÃO

Ciência, religião ou governo? Em quem podemos confiar? Temos hoje todos os recursos científicos necessários para vencermos tecnicamente este vírus. E vamos vencer, não tenho dúvidas disso. Porém, estudos clínicos de grande qualidade e de alto nível de evidência científica, tanto para testar novos medicamentos, quanto vacinas, precisam de recursos financeiros e de tempo para que seus resultados possam ser apresentados, aceitos ou refutados pela comunidade científica. E, uma vez comprovados, eles irão precisar de medidas de saúde pública efetivas para serem aplicados. Ou seja, sair do limite do estudo clínico, da teoria, e passar para a prática, no período mais breve possível no mundo real.

 

VOLTAR À CASA

Todos estes fatores nos levam a um denominador comum nesta crise: é hora de retornamos para casa, literalmente. Aos fundamentos de nossa vivência pessoal em sociedade, que nesta era digital e global estavam sendo deixados de lado. Esta expressão “tornar à casa” pode ter diferentes significados. Homero descreveu este retorno à casa como uma viagem heroica depois de anos de luta em Tróia. Por outro lado, “tornar à casa” pode significar também insucesso. Um retorno para alguém ou lugar que não gostaríamos de conviver ou vivenciar, o insucesso ou o esquecimento social. Afinal, fora de casa, temos o trabalho, o estudo, a diversão, o nascimento dos filhos, o tratamento dos doentes, a vida, o nascimento e a morte. Quem nos guiará neste retorno à casa, indesejado e inesperado em tempos de pandemia? A ciência é a nossa base segura, a religião pode ser um importante instrumento de alento para alguns, e a filosofia um meio de nos guiarmos para a paz desejada.

 

TRANSFORMAÇÃO

Tornar a casa em tempos de pandemia significa uma oportunidade de nos transformarmos internamente. Se combater este vírus é uma necessidade urgente, o melhor meio, a nosso ver, como sociedade, é através da ética.

A ética da comunicação, do cuidado e da responsabilidade. Na ética da comunicação, órgãos de imprensa e órgãos governamentais agindo com transparência e profissionalismo na forma de passar as notícias. Nós, como pessoas comuns, passarmos apenas as informações que forem seguras nas nossas redes sociais, de fontes confiáveis, para evitarmos um dos danos maiores deste vírus que é a desinformação. Desinformação que gera pânico desnecessário e até comportamentos de risco.

 

VIDA É O QUE VALE

A ética do cuidado, não expondo nossas populações mais vulneráveis a riscos desnecessários. Mantermos nossos idosos à distância de ambientes onde existam aglomerações. E a ética da responsabilidade, através do nosso comportamento, do nosso exemplo pessoal. Para aqueles que estão em postos de liderança, lembrar sempre que o valor mais importante é a preservação da vida. Teremos todos que arcar com prejuízos econômicos, maiores ou menores, de tudo que estaremos passando nos próximos meses.

Mas a segurança coletiva é o mais importante neste momento.

E, finalmente, uma das tantas histórias ainda não contadas desta pandemia se refere ao legado que ela deixará em nossas vidas. Nossos filhos retornando à casa, nossos idosos confinados, e de ausência temporária de eventos sociais. O que ficará de tudo isto? Que todos juntos somos mais fortes. E que a solidariedade é um valor fundamental da convivência em sociedade.

(*) CICERO DE ANDRADE URBAN, Médico Mastologista e Oncologista, Coordenador do Curso de Medicina na Universidade Positivo, Vice-Presidente do Instituto Ciência e Fé em Curitiba, Fideles et Constans

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