
Antenor Demeterco Junior (*)
O programa “Roda Viva”, da TV Cultura, apresentou em 30 de setembro do corrente, como entrevistado, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.
É ele, hoje, a mais controvertida personagem do mundo jurídico nacional.
Representa uma força inercial na Corte, em repto a operação “Lava Jato”.
CAUTELOSO
Sem muita habilidade, mas com cautela, esquivou-se de responder (entrecortando com exemplos anteriores não aplicáveis ao assunto) ou respondeu sem convencer a perguntas intimidatórias de jornalistas extremamente qualificados.
De suas colocações é possível extrair-se algumas consequências paralisantes para a atuação dos “meninos” que, corajosamente, estão fazendo o que ninguém fez pelo país.
Julga ele desnecessárias forças tarefas investigativas, que tanto êxito tem demonstrado ao trazer para o palco larápios encastelados em altas funções públicas.
COM CIÚMES
Mostra certo ciúme pela popularização de juízes e procuradores envolvidos nas operações moralizadoras: seriam mais publicitários que juristas.
Anteriormente, mostrou certo despeito pela formação deles na Universidade de Harvard, para alguns a melhor do mundo.
Não causaria perplexidade ao observador a existência de uma disputa por um nicho da opinião pública, afastando qualquer unanimidade para o lado adverso.
IRRITAÇÃO
É humanamente compreensível que deteste quem tentou investigá-lo junto autoridades tributárias.

E mais, hostiliza quem recebe aplausos em público e soberbos índices favoráveis em pesquisas de opinião.
A sua irritação é tanta que qualificou de “gentalha” tais pessoas.
É difícil acreditar que o procurador Janot tentou matá-lo, ato este desprezível, se realmente ocorreu.
Todo o contexto deste eventual crime merece apuração, inclusive as razões que levaram o ofensor a tal disparate incivilizado.
A magistratura brasileira atuante nos estados deve estar atônita, quando assiste a bruscas mudanças jurisprudenciais na Alta Corte.
Tudo hoje, no meio jurídico superior, parece circular com objetivo de libertar um único detento.
DESMORALIZAÇÃO
E a consequência principal destes altos e baixos será única: a desmoralização do Poder Judiciário, apontado política e irresponsavelmente, como parcial e encarcerador de inocentes.
ENORMES RESULTADOS
Apesar dos tropeços, bilhões são reincorporados aos cofres públicos, que foram sorrateiramente desviados por presidiários que se reconhecem como angelicais.
As grandes vítimas do circo de horrores instalado parecem ser os cumpridores de suas obrigações, cuja atuação é espiolhada, inclusive ilegalmente.
O povo brasileiro e sua magistratura de carreira não merecem isto.
A lição que fica é a de que quando magistrados enfrentam poderosos pagam alto preço.
ANTENOR DEMETERCO JUNIOR (*): advogado, desembargador aposentado do TJPR, especialista em História do Século 20.
