Decisão preocupa setor produtivo, enquanto governo de São Paulo e Ford procuram alternativas para a venda das instalações em S. Bernardo do Campo
por Raul Guilherme Urban, jornalista (*)

A notícia caiu como uma bomba na última terça-feira no setor produtivo do país: a Ford anunciou o fim da produção de caminhões na América do Sul e o encerramento definitivo da produção da planta de São Bernardo do Campo (SP), ao longo deste ano. O motivo alegado, de parte da direção da empresa, foi lacônico: “a medida é um dos passos para o retorno à lucratividade sustentável de suas operações na América do Sul”. Os números preocupam: o prejuízo em 2018, conforme balanço, somou 678 milhões de dólares na região. A previsão de milhares de demissões e fechamento de revendas é o temor maior da área automotiva nacional.
REPOSICIONAMENTO
Três pontos foram citados pela direção da empresa e que motivaram a decisão de encerramento das atividades capaz de gerar uma crise no setor com o fechamento de centenas de concessionárias no país: Redução em mais de 20% dos custos referentes ao quadro de funcionários e à estrutura administrativa em toda a região; Fortalecimento da linha de produtos, com ênfase em SUVs e picapes, cuja preferência tem crescido entre os consumidores, e encerramento da produção do Focus na Argentina; Expansão das parcerias globais, como a recente aliança com a Volkswagen para desenvolver picapes de médio porte.
F-600, PIONEIRO
A unidade de São Bernardo desde 2001 produz – e deixa de comercializar – as linhas Cargo, F-4000, F-350, além do automóvel modelo Fiesta, assim que terminarem os estoques. Quem é fã dos produtos Ford, lembra, com saudades do primeiro modelo do caminhão F-600 (foto), produzido a partir de 1957, que reinou soberano durante décadas nas rodovias, antes da chegada dos “pesados” produzidos também pela concorrência.
COMEÇOU NO IPIRANGA
A Ford é a mais antiga em operação da montadora no Brasil. Instalou-se ainda no fim dos anos 1910 no bairro paulista do Ipiranga, e nacionalizou seus produtos durante a gestão do presidente Juscelino Kubitschek, na década de 1950. Ocupava até aqui a quarta posição no segmento de caminhões, com participação de 12% no ano passado, atrás apenas da Mercedes-Benz, Volkswagen/MAN e Volvo. Com mais de 50 anos no mercado, a Ford Caminhões ganhou o respeito de frotistas por causa da robustez e da qualidade dos produtos montados por 2,8 mil trabalhadores que correm o risco de perder seus empregos, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
O cavalo mecânico Ford Cargo 1731 (foto) é um dos modelos de última geração de caminhões que deixa de ser produzido pela empresa.
CRONOLOGIA
A planta da Ford Brasil tem hoje 16 modelos em linha e mais de 400 configurações diferentes. As linhas Cargo e Transit atendem a todos os tipos de negócio – da carga leve e uso em áreas urbanas, aos rodoviários pesados. Em resumo, um pouco da história:
1957: A Ford do Brasil lançou o seu primeiro caminhão nacional, o F-600, que saiu da linha de montagem em 26 de agosto de1957, seguindo o Plano de Metas do governo JK. O índice de nacionalização era de 40% com o motor V-8 a gasolina ainda importado. Em 1958 passou a receber o motor V-8 produzido no Brasil.
COM MOTOR V-8
1959: Lançamento do F-350, o caminhão médio com motor V-8 e 2.670 kg de capacidade de carga.
1960: O papel da Ford Caminhões, no início da década de 1960, foi fundamental para um dos acontecimentos mais importantes do país: a construção de Brasília. Foram os caminhões da marca que transportaram materiais para que a cidade projetada pudesse existir.
Neste período, já eram 30 mil veículos circulando pelo Brasil, chegando até os lugares mais distantes, como Roraima.
A GRANDE FESTA
1964: A Ford comemora 100.000 caminhões produzidos no Brasil.
1967: Em outubro a Ford adquire o controle acionário da Willys Overland do Brasil, cuja fábrica em São Bernardo do Campo (SP) iniciou a produção dos caminhões Ford em 2001, em substituição à fábrica no bairro do Ipiranga.
1975: Lançamento do F-4000 a diesel, quando ainda predominavam os motores a gasolina.
1977: São lançados os modelos F-700, FT-7000, F-8000 e FT-8000, os primeiros cavalos-mecânicos.
1978: Inauguração do Campo de Provas em Tatuí, no interior paulista.
LINHA CARGO
1985: Lançamento da linha Cargo, caracterizada pela sua cabine avançada, originariamente de projeto da Ford Europa associada a um chassi de projeto norte-americano, resultado de um investimento de 150 milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento. Muitos dos componentes do caminhão Ford Cargo foram utilizados no desenvolvimento dos caminhões e ônibus VW nos anos da Autolatina.
1994: Produção de 1 milhão de caminhões Ford no Brasil.
1998: Renovação da Série F, com a reestilização do F-4000, F-12000 e F-14000, introdução do modelo F-16000 e retorno do F-350, destinado ao transporte de 2,1 toneladas de carga útil.
CENTRO DE PEÇAS
1999: Desativação do Centro de Distribuição de Peças da fábrica de São Bernardo do Campo e inauguração de centro terceirizado no município de Barueri, SP.
2001: Início da produção dos caminhões Ford na fábrica de São Bernardo do Campo (SP), nos prédios que anteriormente abrigavam a produção do motor e transmissão do Ford Corcel. Esta linha utiliza os mais modernos e avançados conceitos de produção, além de um inovador sistema de montagem, trazendo maiores ganhos de eficiência e qualidade ao produto final.
2003: Lançamento do cavalo-mecânico Cargo 4331 MaxTon e do Cargo 6×2 MaxTruck, com terceiro eixo direto da fábrica. Mais confiança e qualidade.
CABINE DUPLA
2004: Lançamento da F-350 com cabine dupla, trazendo ao motorista e passageiros muito mais conforto e capacidade de carga.
2005: Lançamento dos primeiros Caminhões Ford com motorização eletrônica: Cargo 815e; Cargo 1317e; Cargo 1517e e Cargo 1717e.
O F-350 e o F-4000 ganharam motor Euromec III, atendendo ao mesmo tempo aos níveis de emissões e ruídos exigidos pelo Proconve Fase V e às necessidades de uma ótima relação custo x benefício.
CARGO 2831
Lançamento do Cargo 4331s MaxTon, com maior capacidade de carga, conforto e durabilidade. Cargo 2831, mais robustez para enfrentar o trabalho pesado em terrenos fora-de-estrada. E Cargo 5031, capacidade máxima de tração 50 toneladas, o melhor custo/benefício da categoria.
2006: Motorização eletrônica adicionada aos modelos: C1722e; C2422e; C2428e; C2622e ; C2628e; C2632e; C2932e; C5032e e C4432e.
2007: Complementando a linha Cargo, são lançados os modelos C712 e Cargo 4532e (este último em substituição ao modelo C4432e).
FORD TRANSIT
2008: A Ford Caminhões lança a linha mais completa de veículos comerciais da categoria, Ford Transit. Com os modelos de Passageiros, Furgão Curto e Furgão Longo a Ford Transit se consagrou com o pioneirismo em tecnologia, segurança, design e conforto.
2010: A Ford Caminhões amplia a linha Ford Transit com o lançamento do modelo Chassi-Cab.
ENTRA NA A.DO SUL
2011: A Ford traz ao mercado sul-americano a linha Novo Cargo 2012, um lançamento muito aguardado no setor de veículos comerciais. A apresentação desta nova linha excedeu a expectativa por lançar, ao mesmo tempo, uma linha com onze modelos, cinco das quais com a opção de cabine-leito.
2012: Com a nova legislação Proconve P7, a Ford Caminhões renova sua linha de caminhões Cargo com motorização Cummins Euro 5, onde os caminhões ganham melhor desempenho, mais potência, maior economia de combustível, redução da emissão de poluentes em 80%, torque máximo em baixas rotações.
2019: A Ford anuncia o fim da produção de caminhões e do automóvel modelo Fiesta na América do Sul.
(*) RAUL GUILHERME URBAN, jornalista, é autoridade reconhecida em mobilidade urbana e temas da indústria automotiva.


