
Quando escutava Bach, o intelectual agnóstico dizia sentir a existência de Deus. O itinerário do escritor e jornalista passa por várias etapas, como a morte de um priminho que ele esperava ser seu companheiro, o que o fez romper com Deus; as descobertas do sexo com religiosas “expulsas” para Foz do Iguaçu; os diálogos sobre a Bíblia e seus momentos marcantes, assunto que às vezes abordava com o filho, Rubens, que assina Opinião de Valor de hoje.
Por Rubens Campana
Meu pai tinha uma relação muito divertida e muito complicada com Deus. Quando era pequeno, ali pelos 8 anos, minha tia estava grávida, e meu pai esperava ansioso pelo novo primo, que seria seu amigo. Quando ela começou a ter problemas sérios no parto, que durou longas horas, meu pai rezou muito para que o priminho ficasse bem. Mas o primo morreu. Naquele dia, começou a discórdia. Depois vieram outras aventuras de Fábio Campana com o divino.
Meu pai contava que, já ali pelos 12 anos, sua iniciação sexual foi com algumas freiras de Foz do Iguaçu. Lugar remoto e considerado inóspito pelo calor, lá na fronteira, Foz era para onde várias instituições mandavam seus membros mais insubordinados e subversivos.
Meu pai contava histórias de marinheiros negros rebeldes e outras figuras maravilhosas que iluminaram a sua infância, todas chegadas a Foz do Iguaçu como lugar de degredo. O mesmo tinha acontecido na Igreja Católica.
Contava que um punhado de freiras novinhas e lindas, porém muito rebeldes e que já deviam ter aprontado muito em algum outro lugar, foram parar por lá. O sentimento dele era de gratidão pelo começo de uma prazerosa jornada. De certa forma, continuava rompido com Deus, mas fez as pazes com a Igreja dele. Aos 13, já estava no Partido Comunista.
Todas as grandes religiões produzem também maravilhosas heresias, o marxismo sendo, é claro, a mais fascinante heresia produzida no Ocidente. Contava que foi no Partido, já em Curitiba, que teve contato com a chamada alta cultura, pela mão de camaradas mais velhos. Tornou-se um apaixonado por música, que escutava na vitrola de um mentor do Partidão. Nunca mais se afastou de Bach e dos barrocos.

Repetia sempre que, quando escutava Bach, e apenas naqueles momentos, tinha certeza da existência de Deus. Nunca batizou os filhos, mas foi leitor da Bíblia durante toda a vida, revisitando sempre os trechos que considerava alta poesia. Tinha paixão pelos Evangelhos.
Entre outras figuras, considerava-se descendente do profeta Isaías e nutria enorme carinho por todos os textos apocalípticos. Ateu, devorava centenas de páginas sobre Inácio de Loyola, por quem tinha admiração infinita.
E também brincou durante toda a vida que nutria um pacto com o Diabo. O pacto que meu pai dizia ter era o seu conhecido prazer em cultivar inimigos e destilar veneno contra os que não estavam em suas graças.
Uma das coisas que o encheram de alegria, no final da vida, foi o fato de ter mudado seus métodos e ter feito as pazes com quase todos os inimigos. Principalmente na última década, reatou amizades e desfez desentendimentos. Pediu perdão a quem merecia, aprendeu a perdoar e reconstruiu laços que aqueceram a sua alma. Acho que tinha desfeito o trato.
Nas últimas décadas da vida dele, também o ateísmo deu lugar ao agnosticismo, que ele dizia ter se tornado amplo e irrestrito. Passou a ser agnóstico em relação a tudo, inclusive às filosofias políticas. Vivia imerso em narrativas e palavras, já sem nenhum interesse por política. Uma das últimas conversas que tive com ele foi sobre nossos trechos favoritos da Bíblia.
Falamos sobre as sete frases de Jesus Cristo na cruz, e contei para ele que a minha favorita, que sempre me leva às lágrimas, é a de quando Cristo diz “Eu tenho sede”. Meu pai, que era ainda mais dramático do que eu, gostava do “Está consumado”. Eu tenho saudades de conversar com você, pai. Eu tenho sede.
