
*Por Vinicius Sgarbe
Para cristãos universais, o Catecismo da Igreja Católica (Profissão da fé, Capítulo Primeiro) é suficiente para a ideia de que o homem é “capaz” de Deus. No resumo do texto, “nós podemos realmente falar de Deus partindo das múltiplas perfeições das criaturas, semelhanças de Deus infinitamente perfeito, ainda que a nossa linguagem limitada não consiga esgotar o mistério”.
Quando, em 1965, a declaração “Nostra Aetate” se refere especificamente às religiões não-cristãs, de algum modo, chove no molhado, mas em um bom sentido. O texto é um instrumento prático aos que na peregrinação encontram saliências como a curiosidade em relação ao outro. Permita-me, para fins pedagógicos, ilustrar o que tenho entendido sobre viver em paz com todos.
Aqui o faço de um jeito muito rudimentar, como testemunho pessoal. Não arrogo ser tomado por comparação, mas acredito firmemente que, em tendo paz com todos e com Deus, depois de tantas presepadas humanas que presepei, algo da Verdade me perdoou.
TODOS IGUAIS
Há muitos anos, lembro que um pastor perguntou assim: “como seria o mundo se todos fossem iguais a você?”. Exceto pelo proeminente orgulho dos adolescentes que vislumbraram a perfeição, ninguém foi capaz de olhar para o futuro da humanidade e para o próprio com entusiasmo.
Ali se entendia não somente Deus é ilimitado em Sua criação, ao dar vida única, e que nisso Ele tinha satisfação, como também que a Obra é constituída de funções diferentes. “Se o pé dissesse: ‘Eu não sou a mão; por isso, não sou do corpo’, acaso deixaria ele de ser do corpo? (1 Cor. 12,15)”.
Anos mais tarde, quando me converti à fé católica, estive efusivo para a realização da catequese e da primeira comunhão. O padre que me aconselha desde aquela época verificou que em mim estava ensinada a mensagem principal, a da caridade, e não demorou para sagrar-me comungado.

GRANDE PÉRSIA
Mas apesar de minha formação protestante, de minha fé católica, jamais me perguntaram qual era minha religião quando fui correspondente para um canal de televisão estatal do Irã. O país é governado por muçulmanos xiitas que têm um código de comportamento muito peculiar herdado também da grandeza da Pérsia.
No maior encontro islâmico das Américas, em São Paulo, participei no papel de repórter especial de jornal. Andei com câmeras para lá e para cá, escrevi muito, conversei, ri – uma característica deliciosa da minha presença. No fim do evento, o xeque da Mesquita do Brás pediu, através de um assessor, que eu fosse conversar com ele.
Morri de medo, porque achei que poderia ter feito algo de errado, que a manchete teria um enquadramento desagradável. Mas não era nada disso. Ele me agradeceu pelo trabalho e me obrigou (obrigou) a aceitar um “presente muito simples, que não se ofenda” mais caro que as diárias de viagem do jornalismo.
Em uma viagem a Jerusalém, competindo com inúmeros registros videográficos de bar mitzvah que eram realizados no Muro das Lamentações, um judeu radicado nos Estados Unidos me concedeu entrevista sobre procurar Deus e me deixou o contato dele. É para eu visita-lo no escritório da 5ª Avenida de Nova Iorque.
AMOR HORIZONTAL
Embora seja absolutamente pertinente reviver os textos históricos, o que inclui “Nostra Aetate”, o que eventualmente pode faltar ao homem que segue a Deus é o entendimento de que amar de modo horizontal é parte do céu. Copio o que está na declaração, por via das dúvidas. “Não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem.
De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: ‘quem não ama, não conhece a Deus’ (1 Jo. 4,8)”.

A filosofia traz inúmeras perguntas relacionadas ao comportamento do homem inquieto que encontra na religião uma luz que ilumine a iminente morte, e que responda, ainda que em parte, qual o sentido da existência. A brilhante obra de Freud que se debruça sobre os achados antropológicos de Frazer é um dos assuntos da filosofia.
Em que ordem, em que medida, e com quais consequências a religião afeta a vida prática, a vida política, são cálculos complexos e muito mais instigantes do que esclarecedores. Mas quem conhece a Deus ama.
*Vinicius Sgarbe é jornalista. Pesquisador mestrando de “Freud e democracia” na PUCPR.
(lgenda) , e Muro das Lamentações em Jerusalém
