sábado, 25 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: A LISTA DE SCHINDLER, O MUNDO DA LUA E AS DEMISSÕES DA UP

“Sim, caro reitor, muitos de nós professores nos dedicamos apenas à vida acadêmica”


Por Carmem Kistemacher Barche* / Plural

“A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, foi um marco na história do cinema. Do mesmo modo, a citação do filme vai ficar marcada na memória de professores, coordenadores e funcionários administrativos da Universidade Positivo.

Quem mencionou a história foi Carlos Fernando de Araújo Jr, pró-reitor de EaD da Cruzeiro do Sul, nova mantenedora da universidade. Ele disse que em geral fica responsável por ser o portador da Lista de Schindler dos funcionários das novas unidades que eram adquiridas pelo grupo.

Para bom entendedor, uma Lista de Schindler já basta, não é mesmo?

Reitoria da Universidade Positivo na Ecoville

A fala, totalmente autoritária e desagregadora já nos fez entender o cenário que viria pela frente: demissão!

Cabe aqui uma ressalva: a fala ocorreu antes da pandemia, numa reunião supostamente de “integração”. Ou seja, os planos de demissão existem desde sempre. Semelhança com a saga do empresário polonês contada na trama? Pensar em enriquecer a todo custo, passando por cima de condutas éticas e morais, adentrando o ímpeto da ambição desenfreada e da selvageria?

Deixo a opinião com vocês, afinal, de que vale a opinião de uma simples docente que está no “mundo da lua”?

O fragmento entre aspas do parágrafo anterior faz parte da entrevista do reitor da Universidade Positivo, José Pio Martins, publicada no Plural. A fala do reitor causou desgosto a mim e a vários colegas docentes demitidos na semana passada pela instituição.

Depois da demissão, feita de maneira totalmente desumana e articulada, nenhuma nota, nenhum artigo, nem um boa sorte ouvimos desse senhor, que agora vem a público e diz: “Mas tem um monte de professor que não ficou no mundo da lua. É médico, advogado, promotor… Tem outro trabalho”.

Sim, excelentíssimo reitor, muitos de nós ficamos no mundo da lua, no pior dos momentos em que isso poderia acontecer, em meio a uma pandemia. Muitos de nós somos docentes de forma integral. Muitos de nós dedicamos nossa vida totalmente à academia. Ou seja, não temos outro trabalho, vivemos para educar.

Mas como o senhor disse em outro trecho: “Na área educacional superior privada, tem uma coisa que as pessoas não entendem: existe uma empresa comercial, que tem vida no mundo do direito empresarial (financeiro, trabalhista, tributário), e essa empresa é a mantenedora de uma IES”. Sim, nós entendemos. Sim, nós sabemos. Sim, nós pertencemos a esse mercado. Sim, nós vendemos nosso trabalho na docência em troca de um subsídio financeiro. Mas não, prezado reitor, nós não comungamos realmente com uma Instituição em que os professores são reduzidos apenas a números, apenas a uma “folha de pagamento pesada demais”. Acima de tudo, estimado, nós não “topamos tudo por dinheiro” e que “azar infernal” o nosso não? Demitidos, sem salário, sem plano de saúde, em meio a uma pandemia. Ei, Spielberg, semelhanças? Ou só devaneios de uma jovem docente?

Por fim, excelentíssimo reitor, seria mais digno com todos nós que a verdade fosse dita, que o número real de demissões fosse público, que a metodologia da Cruzeiro do Sul fosse comunicada (inclusive aos alunos que estão ao relento) e principalmente que o nosso trabalho de docente não fosse tratado como um “bico” que fazemos por ai, para completar nossa renda, pois definitivamente não é!”.

*Carmem Kistemacher Barche – Carmem Kistemacher Barche, mestre em Administração pela UFPR, professora demitida da Universidade Positivo, por meio de uma reunião on-line de 5 minutos e um telegrama.

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