
Com o apoio da maior central sindical do país (a American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations), Natalícia Tracy passou a articular com outras organizações a aprovação, em Massachusetts, de uma das mais avançadas legislações estaduais sobre trabalho doméstico dos Estados Unidos.
Sancionada em julho de 2014, a legislação exige, entre outros pontos, que os domésticos – mesmo os indocumentados – sejam pagos pelo total de horas trabalhadas, garante dias mínimos de descanso e cria canais para denunciar abusos.
Como representante de imigrantes e trabalhadores domésticos, Tracy participou de eventos e reuniões com altas autoridades, entre as quais a senadora Democrata Elizabeth Warren, o presidente Barack Obama e o papa Francisco. Em 2014, ela foi escolhida por um conjunto de organizações e sindicatos baseados em Washington como uma das 25 principais mulheres na liderança do movimento laboral dos Estados Unidos. “Tive acesso a espaços que antes não eram abertos nem a americanos de cor. Foi poderoso.”

Na universidade, Tracy viu sua história se conectar à luta dos negros americanos por direitos civis. Ela diz que uma de suas maiores referências é a abolicionista Sojourner Truth (1797-1883), que nasceu escrava e se tornou livre ao fugir quando tinha 29 anos. “Ela ajudava os escravos a se moverem à noite através de túneis para o Canadá.”
Tracy diz usar histórias como a de Truth para inspirar a comunidade brasileira, por mostrarem o quanto é possível conquistar mesmo em situações adversas.
Ela também associa a experiência dos imigrantes aos desafios que negros americanos vivem no presente. No escritório do Centro do Trabalhador Brasileiro, Tracy pendurou um cartaz com o lema “Black Lives Matter” (vidas de negros importam), movimento que alcançou projeção mundial em 2015 após vários negros americanos serem mortos em abordagens policiais.
Mulher, negra e imigrante, diz usar a seu favor as três características, “desvalorizadas não só nesta sociedade, mas globalmente”. “Essa consciência de ser mulher, imigrante e negra, eu uso isso como uma arma, de forma que sei quem sou e sei da minha capacidade. E se você disse que eu não posso fazer alguma coisa, eu vou te provar o contrário.”
Para Tracy, mesmo a vulnerabilidade vivenciada por imigrantes sem documentos pode ser usada para fortalecê-las. No debate sobre trabalho doméstico na Universidade Harvard, ela disse que, ao contar suas histórias e revelar sua fragilidade, trabalhadoras domésticas criam conexões entre si.
Tracy citou o caso de uma brasileira que chegou desanimada a um encontro com outras trabalhadoras no centro. Seu patrão havia pedido que ela limpasse todos os azulejos do banheiro com uma escova de dente.
Apesar da tarefa extenuante, ela disse ter se esforçado e terminado o serviço antes da hora. Naquele dia, chovia e fazia frio. “Ela pensou que o empregador ficaria feliz, mas, como tinha terminado o trabalho cedo, ele lhe deu um balde e pediu que ela lavasse a cerca lá fora.”
Tracy conta que a senhora chorou o tempo todo ao lavar a cerca e decidiu que, depois daquele dia, jamais permitiria a alguém tratá-la daquela maneira. “Ela saiu da reunião com a sensação de que não estava mais sozinha, de que era parte de algo maior, de que não estava batalhando sozinha.”
