
Em 2021, o Brasil exportou mais de 1,2 milhão de toneladas de frutas frescas, 18% a mais que o registrado em 2020
Por Evaristo de Miranda – Revista Oeste
Um exemplo de sucesso do agronegócio brasileiro é a produção de frutas frescas. Ao longo do ano, não faltam laranjas, bananas, maçãs, mangas, uvas, abacaxis, morangos, melões, mamões e outras frutas. Variedades melhoradas geneticamente ampliaram o calendário das colheitas. A irrigação garante a produção permanente de frutas saborosas. Em 2021, o Brasil exportou mais de 1,2 milhão de toneladas de frutas frescas, 18% a mais que o registrado em 2020. O faturamento, de mais de US$ 1 bilhão, cresceu 20%. Um recorde histórico.
A história da fruticultura no Brasil ainda não foi escrita. Poucos a conhecem. Ela começou no Reino de Portugal. No século 16, Portugal já possuía experiência empírica consolidada em seleção e melhoramento de frutas. Era o processo de “educação” de plantas. A ponto de Luís de Camões evocar o melhoramento obtido no pêssego (Prunus persica L.), em Os Lusíadas:
O pomo que da pátria Pérsia veio,
Milhor tornado no terreno alheio.
Canto IX – Est. 58
Em 1563, o físico d’El Rei D. João III, Garcia d’Orta, amigo de Martim Afonso de Souza e de Luís de Camões, a partir de 30 anos de observações, de experimentos agrícolas em seu horto botânico em Goa e viagens de coleta no Oriente, publicou uma grande revisão científica dos compêndios de botânica da Antiguidade e da Idade Média. Seu livro Colóquio dos Simples, e Drogas e Coisas Medicinais da Índia e Assim de Algumas Frutas Achadas Nela (…) e Ooutras Coisas Boas para Saber já indicava as espécies selecionadas e introduzidas no Brasil. A edição foi logo traduzida para diferentes línguas, resumida, ilustrada, reproduzida e comentada.
O cultivo e o melhoramento de frutas, especiarias e madeiras eram políticas de Estado. Em 4 de novembro de 1796, a rainha D. Maria I, por carta régia, ordenou implantar um jardim botânico em Belém do Pará. Ele integraria uma rede de jardins criados de Lisboa a ilhas e arquipélagos do Atlântico.

O pedido não surpreendeu o governador da capitania, D. Francisco M. de Souza Coutinho. Ele já trabalhava na criação de um espaço botânico para permuta e aclimatação de fruteiras e especiarias. Ele executou a ordem real, designou local, funcionários e criou o Horto Público de São José.
Desde 1789, a barbárie da Revolução Francesa criara um caos sem precedentes na Guiana Francesa, uma terra sem lei, governada por sucessivos jacobinos, vivendo o bloqueio marítimo inglês, insurreições de escravos e dezenas de execuções. O governador do Grão-Pará mantinha severa vigilância na fronteira e montara uma rede de espionagem na Guiana. Seus espiões, além de informações, traziam secretamente exemplares de plantas raras, com potencial econômico para a Amazônia, do jardim botânico La Gabrielle, em Caiena, a Habitation Royale des Épiceries.
DIETA ATUAL
Hoje, a dieta do brasileiro é composta de feijão, arroz, saladas, leite e derivados, ovos, macarrão, pão, biscoitos, açúcar, carne bovina, suína e de frango. Todos produtos exóticos. As frutas mais consumidas, como laranjas, bananas, mangas e uvas, também foram introduzidas. Nas exportações, destacam-se produtos trazidos pelos portugueses, pelo comércio que estabeleceram e lhes sucedeu: carne bovina, suína, de aves, açúcar, álcool, café, soja, algodão, suco de laranja e frutas.
Intensiva em mão de obra (poda, colheita e pós-colheita), a fruticultura lidera a geração de empregos na agropecuária: cerca de 5,5 milhões de empregos diretos, segundo a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados.
MANGA MAIS EXPORTADA
Em 2021, a manga, originária da Índia, foi a fruta mais exportada: 273 mil toneladas, aumento de 12% em relação a 2020. O faturamento da maçã cresceu 79% em relação a 2020 e o volume exportado, 58%. Foram 99 mil toneladas enviadas ao mercado internacional, principalmente à Europa e para novos países, como Colômbia, Honduras e Nicarágua. A uva aumentou em 55% o volume exportado. Mamão, limão e melão tiveram crescimentos expressivos. A recente abertura do mercado chileno para o limão taiti reduz a dependência das exportações concentradas na Europa.
A Europa representa 70% das exportações das frutas brasileiras. Exigente, o mercado europeu é um atestado da ausência de resíduos de pesticidas ou fungicidas nos produtos brasileiros. O consumidor pode ficar tranquilo. As frutas exportadas possuem certificações internacionais, como Global Gap, Rainforest Alliance, Grasp, Fair Trade, Tesco Nurture, BSCI e HACCP.
Fruta vem do latim fructus, a mesma raiz do verbo fruir. Evoca o aproveitar, desfrutar, curtir e saborear. Use o fruto. Usufrua. Graças à Coroa Portuguesa, o agronegócio pode dizer e cantar como na marchinha: “Yes, nós temos bananas!”. E mangas, melões, abacaxis, uvas, maçãs, mamões e muito mais. Como no século passado, o exuberante chapéu de frutas da luso-brasileira Carmem Miranda já prenunciava.
