Chile, Equador, Bolívia, Venezuela, Argentina: sejam de direita, sejam de esquerda, governos se encontram sob pressão em países sul-americanos. O que está por trás das convulsões sociais que incendeiam a região?

Thomas Milz | Deutsche Welle (*)
Protestos violentos contra o aumento da gasolina no Equador, manifestações cada vez mais acirradas contra a reeleição controversa de Evo Morales na Bolívia, uma mudança dramática iminente diante do caos econômico na Argentina e a agonizante Venezuela: governos de esquerda e de direita se encontram à beira do abismo em países da América do Sul.
No Chile, onde os protestos continuam apesar das concessões do governo, o único bastião liberal da região está de pernas bambas. Esse turbilhão pode atingir até mesmo o Brasil, que vivenciou sua própria onda de manifestações em 2013.
EQUADOR, COMEÇO
No início de outubro, o Equador foi o primeiro país a testemunhar protestos violentos que forçaram o presidente Lenín Moreno a suspender medidas de austeridade econômica. “No Equador, ficou claro afinal o que as pessoas querem. Ou seja, mais direitos e manutenção de subsídios”, diz à DW o cientista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Não foi por acaso que o presidente esquerdista Moreno introduziu medidas de austeridade. Ali, “a esquerda também não pode mais governar como antes, como sob Rafael Correa [2007-2017], porque o Equador não tem mais dinheiro”, explica Stuenkel.
CHILE: MELHOR
A situação econômica no Chile é, de fato, melhor. “No Chile, é muito mais difícil identificar o que as pessoas querem, e por isso estou mais pessimista nesse caso”, avalia o cientista político.
No país considerado um modelo do liberalismo econômico, com sua economia completamente privatizada e crescimento robusto, mais de um milhão de pessoas foram às ruas novamente nesta sexta-feira (25/10). Após 18 mortos na recente onda de protestos, o presidente Sebastian Piñera se encontra sob pressão.
“Por um lado, todos reconhecem que o país fez um grande progresso”, afirma Stuenkel. “Mas, ao mesmo tempo, isso gerou expectativas que não puderam ser cumpridas e levou a frustrações.”
ELITE TÍPICA
“Na realidade, nem todo mundo está em situação melhor e, em certas áreas, o Chile continua sendo um país em desenvolvimento, com uma elite típica de um país em desenvolvimento que não parece conhecer realmente seu país, e é por isso que os protestos são contra todos, contra a esquerda e a direita”, completa. Segundo Stuenkel, isso deve trazer ao plano representantes da antipolítica.
“Os liberais brasileiros sempre colocaram o Chile como sua grande referência na América Latina. É uma imagem exagerada que deixou de lado muitos dos problemas sociais. Em particular, foi subestimado o impacto da desigualdade socioeconômica no país”, aponta Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
O cientista político lembra ainda que há anos tem havido ondas de protestos contra a privatização da política educacional chilena.
Mas a cegueira para os problemas sociais é universal, diz Santoro. “Não é algo exclusivo dos liberais. A esquerda brasileira, por exemplo, tem um problema grande em aceitar as dificuldades da Venezuela, da Bolívia e de Cuba. A vida política na América Latina está hoje muito polarizada, e isso acaba refletindo também nas relações internacionais. Fica muito difícil ter uma conversa aberta sobre os problemas.”
BOOM DAS COMMODITIES
Tal conversa aberta seria urgentemente necessária. “Houve um boom de commodities nos anos 2000, e os países da América do Sul cresceram muito. Mas talvez não tenham aproveitado o momento para fazer reformas importantes, tendo se preparado para tempos de vacas magras”, avalia o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, em entrevista à DW. “Diferente do que ocorreu na Ásia, onde se investiu fortemente em educação e tecnologia. E se desenvolveram.”
O declínio nos preços das commodities contribuiu para a queda da esquerda no Brasil, em 2016, e na Argentina, em 2015. Mas mesmo os novos governos conservadores de direita não encontraram soluções, avalia Melo.
“Fez-se uma opção conservadora, que talvez tenha sido radical demais, cheia de vingança e de raiva contra a esquerda, e passado do ponto. E se preocuparam de menos em fazer um bom diagnóstico de quais seriam os problemas econômicos. Então, parece que está chegando a vez da crise dos governos conservadores.”
Na Argentina, os peronistas provavelmente vencerão a eleição presidencial neste domingo, e Alberto Fernández substituirá o liberal-moderado Mauricio Macri. No entanto, devido aos cofres vazios, Fernández terá que governar de forma mais pragmática do que Cristina Kirchner, presidente do país de 2007 a 2015 e agora vice em sua chapa, avalia Oliver Stuenkel.
CRISE REGIONAL
Também está em aberto qual caminho deverá seguir o Uruguai, que, assim, como a Argentina, vai às urnas neste domingo.
“Não é uma crise dos liberais, da direita nacionalista ou da esquerda latino-americana”, afirma Santoro, da Uerj. “É uma crise regional, que tem afetado todas as correntes políticas e partidárias. Não há hoje, na América Latina, um governo que seja capaz de oferecer uma resposta para os problemas sociais e econômicos da região, e a maior parte dos países está em recessão ou com crescimento muito baixo, mais fraco que a média global.”
Novos problemas se anunciam com o Brexit e com a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. “A América Latina tem sentido essas turbulências de uma maneira muito mais dura. E tem faltado, entre os governos e intelectuais latino-americanos, uma reflexão da importância desse cenário internacional, talvez pelo momento muito polarizado que a gente vive na região”, diz Santoro.
“A maior parte das discussões acaba sendo um blame game (jogo de culpar o outro) entre os vários partidos e grupos ideológicos. Como se apenas um deles fosse o culpado por essa crise. Quem dera fosse isso, pois bastaria uma eleição para resolver o problema”, completa o cientista político.
Segundo ele, nem a esquerda nem a direita investiram na modernização.
“Em última instância, existe a dificuldade de se inserir numa economia global mais aberta, mais competitiva. E há uma dificuldade das elites nacionais em promover as reformas necessárias em seus países para combater a desigualdade, para fornecer um sistema.
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