DANTE: UM QUE FOI, DOIS QUE FORAM SEM NUNCA TER SIDO
A morte recente de Oksana Boruszenko e Carlos Eduardo Ceneviva, que este espaço registrou, ganha um olhar ampliado (e com forte cor testemunhal) ao acolher os comentários que segue. São do jornalista e escritor Dante Mendonça, uma das melhores testemunhas da Curitiba contemporânea, excepcional memorialista da cidade. Seguem os textos que Dante publicou em rede social:
Essa também poderia ter sido a legenda dessa foto no bar Ao Distinto Cavalheiro. No centro, Jaime Lerner. À esquerda em primeiro plano, Rafael Dely, o criador do sistema trinário, entre outras contribuições à cidade. Á direita, Carlos Ceneviva, falecido nas primeiras horas de domingo passado, referência internacional em mobilidade urbana, autor de soluções de baixo custo e alta performance, pai do sistema de transportes de Curitiba. Dely e Ceneviva nos deixaram com um projeto não realizado: ser prefeito de Curitiba.
PODERIAM TER SIDO
Amigos e parceiros de Jaime Lerner, os dois poderiam ser prefeito de Curitiba porque, depois de Jaime Lerner, a cidade escolheu um modelo de gestão que tinha os figurinos desejados nos arquitetos Ceneviva e Dely.
Oportunidades não lhes faltaram. Faltaram aos arquitetos as artimanhas da política e a ambição desmedida.
EM 92, OPORTUNIDADE
A maior das oportunidades surgiu em 1992, quando Jaime Lerner procurava um sucessor entre os seus colaboradores mais íntimos e credenciados.
Três eram os nomes possíveis: Cassio Taniguchi (prefeito duas vezes, de 1997 a 2005), Carlos Eduardo Ceneviva e Rafael Dely. O ungido foi um nome quase impossível: Rafael Greca de Macedo, que furou a fila, atropelou a hierarquia e se mostrou bem mais bem articulado e ambicioso que os outros três mosqueteiros de Lerner.
TRÊS PREFEITOS
Poucos antes de Rafael Dely falecer (janeiro de 2007), nos encontramos no bar Ao Distinto Cavalheiro. Com o copo de vinho meio cheio, meio vazio, tivemos o privilégio de sentar na mesa com três prefeitos de Curitiba: um que foi, dois que poderiam ter sido.

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DANTE (II): A NINFETA DO POLANSKI PARTIU

A historiadora Oksana Boruszenko faleceu. Professora aposentada da Universidade Federal do Paraná, doutora nota 10 em Munique, cidadã honorária do Canadá e, naturalmente, de Curitiba, ucraniana de berço e brasileira de espírito.
Dois folclores cercam esta mulher que é uma remanescente da Torre de Babel. O primeiro registra que ela falava as línguas mortas, as moribundas e as exóticas de quebra.
O segundo folclore que acompanhava Oksana Boruszenko vem de suas origens. Com os pais ucranianos e nascida em Varsóvia (Polônia) por mero acidente geográfico (ali estava o hospital mais próximo), diz a lenda que Oksana foi a primeira ninfeta do cineasta Roman Polanski, porque dormiram no mesmo quarto. “É daí que vem o folclore”, explicou essa cidadã do mundo, curitibana de raro bom-humor:
COM A FAMÍLIA POLANSKI
“Moramos durante 5 meses com a família Polanski, dividimos apartamento, com fraldas e tudo o mais, minha irmã era recém-nascida. Essa história de dizer que sou a primeira ninfeta do Polanski foi criada pelo jornalista Aramis Millarch. Encontrei Polanski anos mais tarde (1975), em Nova York, numa manifestação de artistas ucranianos. Foi ele, pelo sobrenome, que me reconheceu. Nessa manifestação estavam John Derek, Debbie Reynolds, Kim Novak, todos ucranianos”.
REENCONTRO
“La Boruszenko” só foi reencontrar Polanski três anos depois, em Paris.
Ele esteve no Brasil, num Carnaval, mas eles dessa vez não se encontraram, só falaram por telefone.
A “primeira ninfeta de Polanski” já não lembrava mais quantas vezes atravessou o Atlântico. Mas da primeira vez não tinha como esquecer: “A guerra nos pegou na fronteira com a Checoslováquia, onde meu pai trabalhava na fábrica de porcelanas Rosenthal. Com o fim da guerra, passamos para a zona de ocupação americana para podermos emigrar.
Primeiro pensamos na Tunísia. Depois tentamos o Canadá, mas não fomos aceitos no exame médico pelas manchas no pulmão de minha irmã Larissa (pianista).
PORÃO DE NAVIO
Eram restos de pneumonia, não tuberculose. Como o Brasil aceitava toda e qualquer manchinha, cá estamos. Viemos num porão de navio (de nome Campana) depois fomos despejados na Ilha das Flores (Rio de Janeiro), tomamos um trem e desabamos em Marechal Mallet (PR)”.
Conhecer o apartamento de Oksana em Curitiba foi conhecer o mundo de uma mulher confortável e feliz. É uma casa de bonecas (sem qualquer alusão a Ibsen), onde recebia os amigos para o “borscht” (sopa de beterrabas), quando mostrava os objetos, tapetes e quadros ucranianos da decoração, quando desfilava sua coleção de sombrinhas: Oksana as odeia, mas carrega pelo menos meia dúzia a cada viagem, para dar de presente às amigas de Curitiba, esta cidade sua maior paixão.
DE DOIS MUNDOS
Doutora Oksana Boruszenko já foi menina entre dois mundos, pouco à vontade em qualquer deles. Deixou nosso convívio como cidadã de dois mundos e do universo, com a universalidade que lhe conferiram a rara cultura e um grande coração. Onde cabiam muito mais amigos, pra cá e pra lá do oceano, que os 50 pares de sapatos que gostaria de usar ao mesmo tempo, se possível fosse ser a centopeia da sua fantasia
