
Alguém tem dúvidas que a sociedade está ficando cada vez mais distante de marcas tradicionais que a identificaram ao longo dos séculos? Uma delas, por exemplo, a que plasmou indelevelmente as gerações mais velhas e o Brasil ao longo de centenas de anos, foi a da celebração do Dia de Finados, o 2 de novembro.
A data ainda leva milhões aos cemitérios. Mas não mais, como antigamente, quando praticamente a Nação toda, com gestos e mostras concretas de veneração aos antepassados, ia aos chamados “campos santos”.
“Não aceito a idéia barata de que esses estertores do Dia de Finados estejam ligados ao “fim da religião”, como se apressam a diagnosticar ateístas de plantão.”
O culto das “almas” tinha um lugar capital, numa realidade em que a morte vinha toda envolta em mistério, sacralidade e, até, capaz de gerar supostas comunicações de mortos com os vivos, mesmo numa visão católica (com os kardecistas, permanece essa visão, claro).
Tratava-se, é certo, de celebração de Finados com as marcas sobretudo de um catolicismo rústico e popular. Nunca foi uma norma, determinação ou – muito menos – “dogma” da Igreja.
O certo é que a Igreja dava um empurrão, fortalecendo aquelas expressões de lamentos por perdas definitivas, por meio de velas, flores, rezas pelas almas, a ideia do Purgatório como estágio intermediário entre o Paraíso e o Inferno.
“Eu mesmo, quando criança, senti fortemente o peso de Finados: não se podia nem escutar rádio, então grande vínculo com o mundo dos anos 1950, só para citar um fato. E se ouvíssemos rádio, a programação era só de clássicos e marchas fúnebres…””
Eu mesmo, quando criança, senti fortemente o peso de Finados: não se podia nem escutar rádio, então grande vínculo com o mundo dos anos 1950, só para citar um fato. E se ouvíssemos rádio, a programação seria preenchida por marchas fúnebres ou músicas clássicas. Tudo “com muito respeito”, como se dizia lá em casa. O pior para os meninos de meu tempo é que o cinema fechava também e tínhamos interrompidas as possibilidades de ver Tom Mix, o seriado do Caveira, o Hopalonge Cassidy…
Hoje em dia, no Finados, há revoadas de pombos, lançam-se flores em capelas funerárias e cemitérios que são verdadeiros jardins, sem estátuas, sem velas, sem jazigos.
Os cemitérios tradicionais – graça a Deus – vão perdendo aquela monumentalidade absurda, dos enormes e luxuosos jazigos, alguns deles verdadeiras réplicas de moradas terrestres.
Claro que igrejas cristãs – especialmente a Católica – celebram ainda Finados. Mas certamente mais dentro do tônus impresso pelo Concílio Vaticano II, o de celebrar a vida, o renascimento do espírito.

Não aceito a idéia barata de que esses estertores do Dia de Finados estejam ligados ao “fim da religião”, como se apressam a diagnosticar ateístas de plantão. Mesmo porque o espírito religioso – em países como o Brasil, e Estados Unidos, citando dois exemplos – está mais presente e forte do que nunca.
Com certeza o que está mudando é a maneira de celebrar o Finados. Alguns até vão visitá-los (os mortos) nos dias atuais em salas floridas, onde as cinzas de seus entes queridos estão expostas em vitrines adornadas por fotos e objetos que foram caros a eles. Tudo diante da nova realidade de um rito de passagem – o das exéquias – que abre espaço para a cremação. Dentre os afetados pelas mudanças na celebração dos mortos estão os floristas. As vendas de flores caíram enormemente nos últimos 10 anos. Para um distinto amigo meu, Antonio Carlos da Costa Coelho, cremação é rito pagão.
Pode ser.
