sábado, 8 agosto, 2026
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Opinião de Valor: O delegado que eu/me amava

Delegado Recalcatti e André Nishizaki. (Foto: Facebook)

Por André Nishizaki

Oito e meia da manhã, compromisso às nove com o chefe, saltei da cama digitando o celular pronto pra ouvir um bom e sonoro “putaquiupariu, japonês, de novo?”. A voz grave e gutural do outro lado: “tá, tudo bem, só troca de camiseta porque a de ontem tava muito curtinha”. Ouço uma gargalhada. Desliguei: “putaquiupariu, que que tá acontecendo?”.

Não era normal o Delegado Recalcatti reagir assim. Mesmo de bom humor, teria vestido sua velha carapuça de xerifão durão que lhe fez a fama em 40 anos na Polícia Civil pra explodir em contrariedade. Mesmo que fosse apenas “pra manter a fama de mau”, teria respondido aos berros pra em seguida dar um sorriso desligando o telefone.

Mas naquela manhã de sexta-feira logo percebi que havia em seu semblante uma leveza incomum e contagiante que explicava a piadinha no lugar da bronca momentos antes pelo telefone. O que realmente passava em sua cabeça ou o que estava lhe proporcionando tão esfuziante sensação eu realmente não faço ideia.

Só sei que, na noite anterior, Delegado Recalcatti havia comandado uma live no Zoom de uma audiência pública que lhe rendeu muitos elogios e prestígio no movimento comunitário voltado pra segurança pública. Como sempre, foi firme e demonstrou competência. Se jogou de cabeça e extraiu de si o máximo pra cumprir o papel de parlamentar e líder.

Ele era assim. Em uma palavra, INTENSO. Tudo o que fazia era com paixão, com vontade, com tesão. Não tinha tempo ruim ou pedra no sapato pra atrapalhar os seus planos, seja lá quais fossem. Da decisão de ir a um batizado numa favela às sete da manhã de domingo ou de bater boca em público com uma autoridade porque os interesses da classe policial estavam sendo negligenciados, ninguém o demovia.

Dono de uma vaidade indisfarçável, harmonizava o terno com os sapatos, a gravata e a camisa. O temperamento explosivo controlava recuando quando necessário e avançando no momento certo. Nos dois celulares, o toque de chamada era o Hino Nacional. Na vida, dois amores: a família e a Polícia Civil. Amor incondicional. Delegado Recalcatti vivia tudo com esmero e intensidade.

E foi trabalhando intensamente que Delegado Recalcatti galgou altura na política paranaense chegando apenas em quatro anos à condição de falar ombro a ombro com a alta cúpula do parlamento estadual, uma roda de poder formada por duas dezenas de velhas raposas, cabeças coroadas, bem-nascidos, emergentes colados no saco do governador e um ou outro passeante de fama efêmera.

Sem antiguidade na política, sem sobrenome lustroso e sem atrativos suficientes pra frequentar os corredores do Palácio Iguaçu, tinha apenas o voto em plenário e o mandato parlamentar nas mãos, além de uma incontestável fama de policial turrão, que, mesmo longe dos holofotes, conseguiu manter durante anos ao ponto de ser eleito. E foi só com isso que conseguiu dar uma virada que poucos conseguem nesta vida.

Depois de descer ao inferno durante dois anos, Delegado Recalcatti assumiu em 2 de maio de 2017 o cargo de deputado estadual no lugar de Chico Brasileiro que havia se tornado prefeito de Foz do Iguaçu, numa eleição extemporânea. Sem emprego e sem opção, apesar de contrariado, acabei indo conversar com o Delegado cuja pesquisa do nome no Google gerava 54 páginas de matérias nada favoráveis.

Sim, eu contei e visitei cada uma delas pra tentar dimensionar o tamanho do desafio que viria pela frente, com a certeza de que, em poucos meses, deveria decidir se iria continuar ou não naquele gabinete. O tempo, como sempre, me disse pra ter paciência e logo me ensinou que estava diante de uma personalidade única e diferenciada.

Quem deu o primeiro passo pra quebrar o gelo foi ele. Antes mesmo de tomar posse, Delegado Recalcatti me entregou um texto muito mal digitado, pedindo pra ser revisado mas sem que fossem feitas muitas alterações. Era o discurso que ele próprio havia preparado pro grande dia. Na hora, pensei: é a minha chance. Na antevéspera da posse, varei a noite reescrevendo.

Entre erros de português, algumas frases mal elaboradas e uma prolixidade irritante, fui percebendo a riqueza do conteúdo daquela redação. A cada linha, saltava a força de um grito contido em seu peito. Era notório que ali, ao contar a sua história de vida e os percalços que havia sofrido, queria deixar claro que iria dar a volta por cima. Que estava pronto, aos 69 anos, pra mostrar mais uma vez a que veio pro mundo.

Mas a narrativa era confusa e o texto não seguia os padrões de um bom pronunciamento. Entre fazer alguns floreios pra agradar o pretenso futuro chefe ou fazer o meu trabalho, decidi revirar tudo e fazer daquele conteúdo algo pra ser lido como um discurso tecnicamente correto mas sem que perdesse a verdade e a sinceridade que o autor queria expor.

No dia seguinte, devolvi o discurso todo reescrito. Sem me dar atenção, Delegado Recalcatti passou o olho, torceu o nariz e me deixou no vácuo o resto do dia sem saber se havia ou não aprovado. Na manhã da posse, pediu pra fazer uma ou outra correção. Nem sequer um comentário.

Às duas da tarde, a Assembleia estava apinhada de gente, na imensa maioria, pessoal da segurança pública. Depois do juramento de posse, Delegado Recalcatti foi convidado a ocupar a tribuna. Da primeira à última frase, leu na íntegra o texto que eu havia reescrito. Foram 12 minutos de um pronunciamento que empolgou, emocionou e fez os deputados o aplaudirem de pé.

E, assim, foi o meu primeiro dia de trabalho com Delegado Recalcatti. Sem contrato e sem um elogio. Na semana seguinte, me chamou pra conversa, dobrou o meu salário e me ameaçou: “posso precisar do teu cargo a qualquer momento”. Pensei: grande bosta! Se vai me pagar o dobro, vou encarar esse cara!

E, desde então, foram quatro anos INTENSOS. De uma relação no começo de desconfiança mútua a uma amizade construída com distanciamento respeitoso. De gente grande que sabe que um passo em falso destrói tudo entre duas pessoas. De adultos pisando em ovos pra um não magoar o outro. E, óbvio, alguns ovos foram quebrados. Fizemos, então, omeletes. Aprendemos juntos a depender um do outro.

Foram quatro anos INTENSOS. De muitas gargalhadas, de algumas brigas, de muita cumplicidade. De uma entrega mútua sem que ninguém pudesse interferir. De uma troca de conhecimentos absolutamente antagônicos buscando pontos coincidentes. De uma certeza que o nosso convívio não seria pra sempre. De um pavio aceso que a qualquer hora poderia explodir. E explodiu.

Naquela manhã de sexta-feira, havia um bibelô levemente fora do lugar na cristaleira da nossa amizade. Havia uma decisão unilateral que o outro não poderia saber. Havia um comportamento inusitado porque algo iria acontecer horas depois. Aconteceu. Seu coração explodiu e ele morreu. Delegado Recalcatti partiu do jeito que sempre viveu: sem dar explicações.

Na tarde daquela sexta-feira, despediu-se da forma mais improvável. Pouco antes das quatro, como era de praxe, passou no escritório político e, mais uma vez, tentou me arrastar pra um dos seus infindáveis passeios, visitas e compromissos pessoais. Levando um não porque no notebook ainda estava com um release inacabado, saiu resmungando em direção à cozinha.

Fui atrás dele pra amenizar a situação e logo o pequeno grupo de assessores que ainda restava no local de trabalho se reuniu em torno de Delegado Recalcatti, todos sorridentes querendo lhe dar um bom fim de semana. Mas, como de praxe, o chefe anunciou que iria ao Mercado Municipal e que ainda retornaria ao escritório.

Certamente, pensei, vai chegar no mercado e ligar pra dispensar todo mundo como sempre fazia. Tomou a direção do carro e partiu levando uma de suas assessoras. O surpreendente foi que, em menos de dez minutos, vejo da janela o carro estacionando. “Ué? Desistiu?”. Em seguida, ouço gritinhos de comemoração pela incomum deferência do chefe retornar pra pessoalmente mandar todo mundo embora. E se despedir..

Naquele instante, daquela tarde de sexta-feira, o bibelô se moveu mais um pouco. Três horas depois, ele caiu no chão.

(Esta é uma pequena homenagem e registro de nossa amizade, sem objetivo biográfico ou documental. Do primeiro ao último dia de trabalho com Deputado Delegado Recalcatti, sempre tive a certeza de estar convivendo com uma pessoa muito especial e diferenciada. O título não é exagero, apesar de ser uma brincadeira com o cara com quem muito me diverti nos últimos quatro anos. Obrigado, Delegado!)

 

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