
Belmiro Valverde Jobim Castor morreu há um ano, em 29 de março. Foi uma das cabeças mais iluminadas que o Paraná teve, voltada a pensar o Estado, a contribuir para sua administração, como o fez particularmente no Governo Canet Junior, na Universidade e nas lições que passou em obras como “O Brasil não é para amadores” (também em inglês, pela Amazon), e uma fértil contribuição como articulista da Gazeta do Povo.
O pensador cedo tragado pelo ‘anjo da morte’ estava com um último livro pronto. Trata-se de “A Empresa Brasileira e a Globalização” obra de fôlego – um livro de peso, como se dizia outrora. No entanto, não chegou a acertar sua edição: morreu dois dias antes de assinar contrato com uma editora de São Paulo. Hoje a obra encaminha-se para ser editada em Curitiba. Tive acesso aos originais do livro, graças a Elizabeth Castor e a filha do casal, Carolina Castor Lohman (que reside na Alemanha).
2 – PARA PÚBLICO ECLÉTICO
Carolina repete a explicação que ouviu de Belmiro:
“O livro foi escrito com um público eclético em vista: na academia, para professores e alunos de administração, comércio exterior, administração cambial e finanças internacionais, especialmente na pós-graduação; para profissionais dessas áreas que trabalham em bancos, traders, corretoras, etc. e para funcionários públicos que atuam nas áreas de câmbio, comércio exterior, escritórios de advocacia.”
A seguir, pontos salientes de “A Empresa Brasileira e Globalização”, como essa abordagem introdutória de Belmiro:
3 – NOS ANOS 1990
“Por que um livro sobre globalização adaptado ao Brasil é oportuno?
Porque, apesar de nossos mais de quinhentos anos de história e os duzentos anos que transcorreram desde a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, pode-se dizer sem risco de exagero que foi a partir de 1990 que o Brasil realmente parou de olhar para o próprio umbigo e passou a valorizar estrategicamente sua inserção em um mundo, cujo comércio, mercados financeiros e sistemas produtivos se mostravam progressivamente mais e mais integrados e intercomplementares.”
4 – INTROVERTIDOS
E explica Belmiro:
“Até então, éramos um país, por assim dizer, introvertido (palavra que etimologicamente significa, “aquele que é voltado para dentro”), cujo sistema econômico estava em boa parte isolado e protegido do que acontecia no restante do mundo.
Pode parecer paradoxal falar de distanciamento em um país que desde o século dezesseis pratica o comércio internacional e que desde o início do Século Dezenove está aberto ao comércio “com as nações amigas”. No entanto, a inserção do Brasil, das empresas e dos empresários nos negócios internacionais é limitada e seletiva. O comércio exterior brasileiro é dominado por grandes empresas, com uma grande participação de multinacionais, como revelam as estatísticas oficiais: 350 das vinte mil empresas exportadoras participaram com 78,8% das exportações em 2011 e entre as vinte maiores exportadoras, oito eram filiais de empresas multinacionais. Na importação, a concentração é semelhante: 250 empresas respondem por 63% das compras externas e treze das vinte maiores importadoras são filiais de grupos multinacionais.”
5 – REMEMORANDO…
E prossegue o autor na apresentação da obra:
“Até 1990, várias entidades governamentais como o IBC-Instituto Brasileiro de Café, o IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool e o complexo siderúrgico estatal eram atores centrais da presença brasileira nos mercados mundiais até que o desmantelamento dessas autarquias e a privatização das empresas estatais de minérios, siderurgia e produtos petroquímicos retirasse praticamente o Estado do comércio exterior.
Apesar desse avanço, pesquisas internacionais demonstram algumas realidades importantes em relação a produtos e produtores brasileiros: a primeira é o grande desconhecimento do que o país produz, o que leva frequentemente a associar o Brasil a estereótipos ligados ao café, carnaval e futebol. A imagem brasileira está intimamente ligada à da alegria, cordialidade e da valorização da beleza. Produtos brasileiros se colocam entre os chineses e os italianos em matéria de percepção de qualidade associada à origem e só em pouquíssimos casos, projetam uma imagem de excelência.”
6 – CAPACITAÇÃO
E para quem foi escrito o livro? A resposta de Belmiro é bem clara:
“[É] possível perceber que existe, de maneira geral, uma hierarquia onde se percebem três grupos distintos de produtos-país. Um primeiro grupo é composto pela China e pelo Brasil, bastante próximos. Este livro foi escrito para os Leonardos, Manuelas, Luiz Felipes e Annas Claras; para empresários, administradores, professores, estudantes ou estudiosos dos negócios internacionais e para funcionários governamentais, com um objetivo central em vista: capacitá-los a entender a dinâmica dos mercados internacionais contemporâneos e entendendo-a, preparar-se para participar do processo de globalização em suas áreas de atuação: nas empresas de comércio exterior, buscando novos mercados e novos negócios; nas empresas domésticas, aumentando sua capacidade de resistir à entrada de novos concorrentes vindos de todas as partes do mundo e sua competitividade. Na academia, nas profissões liberais e nos órgãos públicos, habilitando os profissionais dessas áreas para formular suas decisões e aperfeiçoar sua capacidade de aconselhamento. Em outras palavras, ampliando sua competência pessoal e empresarial para interagir lucrativa e eficazmente com a globalização.”
