quinta-feira, 26 março, 2026
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No relógio da Praça Osório, a hora oficial de Curitiba

Memória Urbana por Raul Urban – Em 1914, quando eclode a Primeira Guerra Mundial – e que só termina quatro anos depois -, o então prefeito de Curitiba, Cândido de Abreu, decidiu instalar um relógio público na Praça Osório, permitindo à população fácil visibilidade à hora certa, enquanto circulava pelo centro da cidade. Relógios públicos eram raros, a maioria, no país instalados nos campanário ou no alto das torres das igrejas geralmente construídas nos contornos das praças principais. A Praça Osório, instalada cerca de 25 anos em um terreno então pantanoso e insalubre, na gestão de Abreu passava pelo primeiro processo de remodelação e ajardinamento.

Nessa ocasião, a Prefeitura de Curitiba, depois de intensas negociações, obteve um empréstimo no valor de seis contos de réis do governo inglês. Uma pequena fortuna para a época, repassada ao Estado do Paraná, utilizada, entre outras coisas, na pavimentação de ruas com paralelepípedos, bem como a construção e remodelação de diversas praças, entre elas a Osório.

A intenção maior, quando da montagem do relógio, era a de marcar a hora oficial da cidade, permitindo que toda a população se orientasse por ele enquanto marcador da hora certa da capital. O maquinário desse relógio foi produzido por uma fundição inglesa, com filial na cidade do Rio de Janeiro. Foi essa mesma indústria que, simultaneamente, fabricou o coreto, instalado a poucos metros do relógio, depois demolido, bem como as nereidas – figuras femininas – que embelezam o repuxo, localizado no centro do logradouro, ainda hoje no local. Os trabalhos de instalação do relógio começaram em dezembro.

No descritivo da obra, a então existente Comissão de Melhoramentos de Curitiba, e que tinha como função principal fiscalizar as principais obras públicas, no seu relatório de prestação de contas de 1914 dizia, textualmente:

“O relógio foi assentadosobre uma elegante coluna de granito de Piraquara [Nota: Piraquara, município hoje localizado na Região Metropolitana de Curitiba, era, à época, um dos maiores produtores de granito da região], ornamentada com arte e apresentando um lindo conjunto de pedra guarnecida de bronze,t erminando tudo por um vistoso relógio elétrico, servindo de lampadário, sobrepujado pelas armas do município.”

Mas a população ficou frustrada ao ser informada de que boa parte dos mecanismos trazidos a bordo de um navio a vapor, do Rio de Janeiro, não chegou a tempo a Curitiba, por causa do conflito mundial. Apesar de instalado no alto da coluna de granito, mas desprovido de ponteiros, o relógio não conseguia cumprir sua missão. Mesmo superado esse impasse, o relógio, conforme as notícias de jornais da época, após um início de funcionamento aparentemente regular, sofreu paradas constantes, por conta de pequenos defeitos em seu mecanismo, provocados pelas frequentes interrupções de energia e de curtos-circuitos, comuns na época.

Novos tempos

Cândido de Abreu. Imagem: SESC Paço da Liberdade

Após a implantação, mesmo que parcial, do chamado Plano Agache, e que transformou completamente Curitiba, dando-lhe ares de modernidade – o que se dá a partir de 1943 -, a Praça Osório, no fim daquela década, passa por nova remodelação, que inclui o conserto do relógio. Foi preciso muito trabalho para que surtissem efeito os reparos em toda a parte elétrica. No painel externo, os números romanos então indicativos das horas, foram substituídos por um painel com números arábicos.

Já na década de 1950, quando o general Iberê de Mattos era o prefeito da cidade, nova transformação: o relógio, no alto da coluna, então redondo foi trocado por um modelo quadrado, com quatro faces, permitindo facilmente a leitura das horas de qualquer ângulo pelos passantes. Esse modelo, agora já produzido no Brasil, dispunha de uma central eletrônica instalada no fundo do chafariz – que, como até hoje, ocupa a parte central da praça. Essa central comandava os impulsos que então eram diretamente enviados aos quatro mostradores.

*Raul Guilherme Urban é jornalista, escritor, memorialista, pesquisador da memória histórica e ligado à área do transporte multimodal integrado e colaborador do Mural do Paraná.

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