
Dizer que “O Livro Vermelho” do Nêgo Pessoa (Carlos Alberto Pessoa) é uma surpresa, para mim, seria mentira, pois sou velho amigo e admirador desse jornalista e escritor cuja profissão de fé segue a “sina” de nos chamar à razão.
É um racionalista bem equipado, a partir de leituras sólidas, pesadas, em que não faltam especialmente os clássicos da economia e da filosofia, que o formaram.
E tanto quanto isso, Pessoa é o homem das maduras companhias: sempre o acompanhei ao lado de homens (e algumas mulheres) de dimensão semelhante à sua. Gente como Luiz Roberto Soares (in memoriam), Belmiro Castor, Fábio Campana, Jamil Snege e, ultimamente, mostrando-se parceiro de aventuras de “ratio” do lépido Luiz Fernando Casagrande Pereira, ‘scholar’ e jurisconsulto.
NÊGO PESSOA SEM SURPRESA (2)
Não me surpreende “O Livro Vermelho” porque ele resulta de cuidadosa edição de momentos mais significativos da produção de Pessoa, a partir de verbetes colhidos em diversos de seus livros.
Sobre as raparigas em flor, impossível não reproduzir o que diz delas o nosso Nêgo Pessoa, um setentão que conheço desde quando criança, no Colégio São Vicente de Paulo, aquele inesquecível Ateneu de Irati que formou gerações de homens de espírito sob a cátedra de Padres Rui, Nicolau, Marcello Motta Carneiro, Wilson Palu…
Eis o verbete “às raparigas em flor” meninas usem sapatos de salto, duas polegadas no máximo; se tiver mais de 1 e 70 não humilhará seu par: ele pode não estar à sua altura; e se tiver menos de 1 e 60 não o decepcionará quando descalçá-los”.
NÊGO PESSOA SEM SUPRESAS (3)
Nêgo Pessoa é uma alma de criança, sempre foi, com suas birras, implicâncias e fixações. Às vezes me dá a impressão ser comandado pela doce e caridosa dona Matilde (Anciutti), a mãe italiana em terras tropicais, com todo seu mundo de certezas. Certezas centradas a partir da Santa Madre Ecclesia.
Outras, enxergo o bom amigo muito distante das lições de esperança transmitidas à grande família de Irati pela matriarca, a cuja presença não se ficava alheio.
Nêgo esqueceu – parece-me – que a Esperança é a mais sólida lição das orações de dona Matilde que, sem se dar conta, estava sempre a repetir a perene lição do povo judaico: o hoje é bom, o amanhã será melhor.
Minha certeza é a de que as crianças – de qualquer idade – um dia aprenderão o ABC da Vida Plena.
