segunda-feira, 19 outubro, 2026
HomeMercadoNamata celebra 10 anos com chamado para olhar a Amazônia

Namata celebra 10 anos com chamado para olhar a Amazônia

Assessoria – Antes de receber o primeiro evento, o Espaço Namata já tinha um compromisso: nenhuma árvore seria derrubada para que o projeto saísse do papel. A promessa, feita pela arquiteta e proprietária Liliane Robacher ao pai, orientou a construção e deu identidade ao endereço em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. No último sábado (17), ao celebrar dez anos de atuação, o espaço ampliou essa conversa. Entre araucárias, um almoço com sabores da Amazônia e um encontro “Amazônia Linda e Próspera: como fazer desse futuro uma realidade”, com especialistas aproximaram os convidados de uma floresta que, embora distante no mapa, participa da vida cotidiana de todo o país.

O encontro teve entre os destaques as participações do pesquisador Beto Veríssimo, da antropóloga Mary Allegretti e do ambientalista Luiz Villares, que lançou o livro Ecos do Antropoceno. A programação colocou em discussão a relação entre conservação, economia e qualidade de vida, além da responsabilidade de reconhecer e apoiar as pessoas que vivem na floresta.

Essa aproximação também aconteceu à mesa. A gastronomia amazônica é um dos diferenciais oferecidos pelo Namata, que trabalha com a gastronomia saudável,  para eventos sociais e corporativos e tem ligação com a trajetória de seus fundadores.

Antes de criar o espaço no Paraná, Fernando Allegretti e Liliane Robacher deixaram Nova York para viver na Amazônia, onde trabalharam com sustentabilidade e com a aproximação entre comunidades e empresas. Os ingredientes e as histórias da região passaram a integrar a experiência que hoje proporcionam aos visitantes no Sul.

“Queremos aproximar a Amazônia de quem está aqui no Sul a partir do conhecimento e da experiência. Quando você prova um ingrediente e entende de onde ele veio, quem o produziu e o que existe por trás daquele alimento, cria uma relação diferente com aquele território. Acreditamos que conhecer é um primeiro passo para valorizar”, afirma Fernando, sócio-fundador do Namata e consultor em sustentabilidade.

No sábado, o percurso gastronômico começou com dadinhos de tapioca assados com geleia de cupuaçu, rolls de banana-da-terra com pirarucu selvagem defumado, vol-au-vent com tomate confitado, queijo meia-cura de SC e tucupi preto Wapixana, além de croquetas de cogumelos com aioli de tucupi. Uma ilha amazônica reuniu salada de folhas com castanhas-do-brasil, queijo coalho e pesto de jambu, mandioca, farinhas de Uarini e d’água e caldeirada amazônica.

Pato no tucupi

Entre os pratos principais, os convidados experimentaram o pato no tucupi com arroz branco, banda de tambaqui selvagem assada na parrilla com arroz amazônico ao tucupi ou a opção vegana de moqueca de banana-da-terra e palmito com arroz de coco. A sobremesa combinou cacau, coco, creme de cupuaçu e crumble de castanha.

Concebido pelos proprietários em conjunto com o cozinheiro líder do espaço, o manauara Marco Antonio Barros, o menu teve coautoria do chef, jornalista e escritor Roberto Smeraldi, fundador da ArteSã. A procedência dos ingredientes também fez parte da proposta: o pirarucu selvagem manejado por comunidades ribeirinhas foi fornecido pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC), enquanto o tucupi preto veio da comunidade indígena Wapixana, de Roraima. Por trás de cada preparo, o almoço apresentou pessoas, conhecimentos e cadeias produtivas que conectam alimentação, cultura e conservação.

Essa presença humana na floresta também atravessou o debate. Veríssimo provocou o público a pensar sobre a imagem de paraíso associada às florestas tropicais. Por trás da paisagem exuberante, lembrou, há uma história de presença humana, conhecimento e transformação do território que atravessa milênios. Os solos enriquecidos pela ação de antigos habitantes, conhecidos como terras pretas, ajudam a contar essa trajetória e a questionar a ideia de uma Amazônia intocada, sem gente ou história.

Economia e natureza

Foto: André Nunes

A reflexão alcançou uma dependência que nem sempre aparece quando se fala em desenvolvimento brasileiro: a relação da economia com a natureza. Ao abordar a circulação de umidade e a influência da floresta sobre o regime de chuvas, o pesquisador aproximou a Amazônia das lavouras, dos reservatórios e da geração de energia. A conservação, nessa perspectiva, tem consequências sobre a produção de alimentos, o abastecimento e a segurança econômica de regiões que estão a milhares de quilômetros dali.

Ao descrever uma floresta com “febre”, Veríssimo chamou a atenção para os riscos da combinação entre desmatamento e aquecimento. A perda de vegetação compromete a capacidade de manter as condições que sustentam a própria floresta e amplia a preocupação com secas, escassez de água e prejuízos à produção agrícola. Também ameaça um patrimônio de diversidade biológica e genética que ainda guarda possibilidades de pesquisa e conhecimento.

Na fala de Mary Allegretti, o debate ganhou rosto e endereço. A antropóloga destacou o papel de homens, mulheres e crianças que vivem na Amazônia e ajudam a conservar seus territórios. Em muitas localidades, são famílias distribuídas por grandes extensões, com dificuldades de acesso a serviços e pouca visibilidade fora da região. Reconhecer sua contribuição, defendeu, exige olhar também para suas condições de vida.

A proteção da floresta passa, assim, por questões concretas: escola, saúde, investimento e oportunidades. A retirar valorização internacional riqueza da biodiversidade da Amazônia contrasta com a precariedade enfrentada por parte de seus moradores.

Durante o encontro, o relato sobre uma iniciativa de pesquisa com participação do Hospital Pequeno Príncipe, em Manicoré, no Amazonas, trouxe essa realidade para perto: a infância com liberdade e contato cotidiano com a natureza convive com obstáculos no acesso ao atendimento básico de saúde.

Mary Allegretti também ressaltou a contribuição histórica dos povos originários para a formação e a diversidade da floresta. Sua abordagem reforçou uma ideia que atravessou a programação: conservar a Amazônia exige compreender os vínculos entre o território e as pessoas que vivem nele, acumulam conhecimentos e participam de sua proteção.

Com o lançamento de Ecos do Antropoceno, Luiz Villares levou a discussão para os modelos de crescimento econômico e as escolhas de investimento. Publicado pela Casa Matinas, o livro reúne quase três décadas de atuação, estudos e reflexões do autor, cuja trajetória passa pela defesa do Parque Estadual de Ilhabela, pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo e por 16 anos como diretor financeiro da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

Namata

Divulgação

No Namata, essas reflexões encontraram uma ligação com a própria história do espaço. Criado para receber eventos sociais e corporativos de até 200 pessoas, o empreendimento precisou acomodar sua arquitetura entre as árvores existentes. Um dos resultados é o Domo Geodésico, projetado por Liliane especialmente para o lugar onde foi instalado, com madeira de reflorestamento e uma estrutura formada por triângulos interligados. Acima dele, três araucárias centenárias desenham outro triângulo, aproximando a geometria da construção daquela que já estava na paisagem.

A preservação permanece visível na experiência de quem visita o local. Entre araucárias e outras espécies, gralhas, jacus, pica-paus e tucanos dividem o ambiente com saguis, esquilos e outros animais que aparecem por ali. São presenças que ajudam a dar sentido à decisão tomada antes da obra e que continuam fazendo parte do cotidiano do espaço.

Ao completar uma década, o Namata transformou sua celebração em uma oportunidade de discutir a escala dessas escolhas. Da árvore preservada em São José dos Pinhais aos alimentos produzidos por comunidades amazônicas, o encontro mostrou diferentes formas de aproximar conservação e vida cotidiana. No terreno onde a arquitetura precisou encontrar seu lugar entre as árvores, essa conexão também se constrói pelos sabores que chegam à mesa.

Leia Também

Leia Também