
(espaço de Antonio Carlos da Costa Coelho)
No tempo em que os homens falavam com os animais, lá no Paraíso, com um papinho sibilante, a cobra seduziu Eva. E então, a primeira dama do Paraíso, contaminada pelo poder da sedução da astuta serpente, convenceu, também, a Adão provar da maçã. De lá para cá já não existe mais paraíso. O homem e a mulher terão que pagar por tudo o que comerem – e, mesmo assim, jamais deixaram de dar ouvidos aos sibilos inebriantes das serpentes. Assim foi com um amigo curitibano.
Waldemar é homem feito. Sério. Funcionário concursado do Banco do Brasil.
Com 48 anos, mora com a mãe que sonha em vê-lo casado. – Mas, ele não tem sorte, diz ela, já meio sem esperança. – Uma vez arrumou uma garota, mas ela acabou conhecendo um alemão e hoje mora em Dusseldorf. Depois ele encontrou outras, mas, também, não vingaram. A última, ah… safada… destruiu o seu coração e consumiu as suas economias – conta a mãe. Depois dela nunca mais ele procurou mulher. Às vezes penso que, de tristeza e mágoa, ele irá se acabar no conhaque e nos boleros de Lucho Gatica e Luiz Miguel. É uma tristeza só.
Tristeza que não é pra menos. Waldemar se apaixonou pela mulher da cobra.
No começo era só amizade. O rapaz frequentava o bar do marido dela. Ela aparecia só de vez em quando. Mas, um dia o bar fechou e, por amizade, Waldemar passou a frequentar a casa do amigo. Lá os tragos eram de graça e na companhia do casal. Primeiro na sala de visita e, depois, na mesa da cozinha. Ela, aquela sirigaita – conta a mãe – bonita que só, pernas longas, coxas grossas, pele branca e cabelos negros, seduziu o garoto. Uma dançarina do ventre. Dançava com a espada na cabeça e com as cobras enroladas naquele corpo escultural, recorda a pobre senhora que, depois desses ocorridos, passou a frequentar a Quadrangular.
“ERAM DUAS JIBÓIAS; UMA, ALBINA”

Eram duas jiboias, uma albina e outra da comum. Waldemar cuidava das bichas como se fossem crianças. Antes de pegar no serviço, corria comprar ratinhos para alimentá-las. E, quando saia do Banco – diz a mãe comovida ao lembrar da dedicação do filho – descia correndo a Marechal Floriano buscar as víboras para levar ao restaurante onde diaba dançava. Carregava as serpentes numa cesta igual a da rainha do Egito. Ia de taxi e pagava a corrida. Até isso ele fazia.
Quando ela dançava Fatamorgana e Ensa El Hem as jiboias deslizavam pelo seu corpo e beijavam seu rosto pálido. O público delirava. Waldemar passava entre as mesas oferecendo o CD da sua amada. Depois de três anos, foram-se as economias, conta a mãe. Tudo que guardou na vida se foi. Ele dava de tudo pra sirigaita. Chegou a comprar roupas e até botas de verniz.
Daquelas que vão até as coxas. Só luxo. Era muita paixão. E a sem vergonha, quando a poupança acabou, trocou o Waldemar por um motociclista.
Para machucar, passava, nas tardes de sábado, na frente de casa com o motor roncando alto e a vadia na garupa. Exibida! Vestia roupas justas de couro e as botas vermelhas que o meu menino comprou. Maldita! Agora veja como ele está. Sua vida é só trabalho, bar e bolero. Uma solidão que dói no coração de mãe.
