(Espaço exclusivo de Antonio Carlos da Costa Coelho

O barbeiro da Praça Zacarias é um romântico. Um boêmio sentimental.
Bonito, na juventude cultivava um bigode de artista de cinema. Perfumado, só perfume argentino. Elas gostavam, dizia ele. Nas noites conheceu muitas mulheres e, por muitas se apaixonou. Nos sambas canções e boleros de Breno Sauer, com o coração machucado, chorou amores perdidos.
Nos finais de semana desfilava com sua última paixão – uma garota, sargento do Exército da Salvação. Iam ao Passeio Público, a matinée, e para encerar, num sarau em algum clube de bairro. Com melancolia e olhos brilhantes, recorda o tempo dos namoros no pedalinho do Passeio Público.
Onde, entre beijos e abraços apaixonados, jogava pipoca aos marrecos que, em caravana, seguiam a barca dos amantes. Enquanto beijava sua amada, na imaginação, Ray Conniff tocava “Love is a many splendored thing”. Mas depois, já mergulhado na realidade, se contentava com o piston do Beppi na Sociedade das Mercês. E, com o rosto colado, deslizava no salão até a última música.
BOÊMIO INCORRIGÍVEL
O sarau acabava cedo. O barbeiro, não satisfeito, se despedia da moça e, por uma picada, chegava ao Sobradinho, onde dançava até mais tarde. No dia seguinte, trabalho. Trabalho era bom, ajudava o dia passar mais depressa.
Era da noite que o barbeiro gostava. Boêmio incorrigível, não dava ouvido aos pedidos da jovem mulher para que voltasse cedo, e, quando um dia voltou, já era tarde demais. Ela, com o filho de colo, havia retornado à casa dos pais em União da Vitória.
NINGUÉM GANHOU
Com a separação ninguém ganhou. Ela se enfiou na casa dos pais onde está até hoje. O filho partiu para o estrangeiro, os pais morreram, ela ficou lá, sozinha na casa do velho ferroviário. Ele corta um cabelo aqui, outro ali. A noite é seu refúgio. Entre um copo e outro, ainda, depois de tantos anos, lamenta a primeira esposa perdida. Casou de novo, mas não deu certo.
Ela entrou numa dessas igrejas que oferecem salvação certa. Diz ele que foi trocado por Jesus ou pelo pastor, quem sabe? Pergunta a si mesmo. Só uma boa música, uma dança com alguma senhora o faz esquecer o passado e suportar o presente… Levanta da mesa do bar, pega o carro e vai ao Portão pegar o bailinho.
