terça-feira, 7 abril, 2026
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Na toca do Coelho: meu mundo caiu

(espaço de Antonio Carlos da Costa Coelho)

Simca Chambord
Simca Chambord

A televisão foi a grande novidade dos anos 60 em Curitiba. Eram dois os canais com alguns poucos apresentadores responsáveis pela condução dos programas locais e, ainda, alguns garotos e garotas propagandas. Eram as verdadeiras celebridades da telinha ainda em preto e branco.

Uma daquelas garotas se destacava. Fazia o estilo jovem guarda. Cabelos loiros e longos, saias curtas, botas e com um nome que não deixava dúvidas a nenhuma mãe do clube das soroptimista. Era uma predestinada. Suas breves aparições, sempre ao lado de uma mesa de biscoitos ou pacotes de massas, arrancavam maliciosos suspiros e iluminados desejos de muitos garotos atirados nos sofás Ronconi.

 Karmann Ghia
Karmann Ghia

Um desses garotos, já não tão jovem, conseguiu aproximar-se daquela celebridade paranaense. Iniciaram um namoro e logo pensaram em casar. Ele boa pinta, de família rica do Juvevê. Ela nem tanto, mas o coração do rapaz não considerava nenhuma outra possibilidade senão viver um amor eterno com aquela que era a “mais gostosa” da cidade. A paixão era forte.

Nem as ameaças da mãe não o fez desistir. Um dia saiu de casa e foi viver com a garota da TV.

Para sair com ela e exibi-la no clube tratou de arrumar um carro que combinasse com sua garota. Trocou o Sinca Chambord por um Karmann Guia vermelho. Parava na XV, mostrava-se aos outros companheiros do Café Ouro Verde. Afinal, ele era o namorado de uma celebridade da TV. Fez fama e era invejado pelos seus companheiros de lorotas.

Num sábado à tarde saiu de casa para encontrá-la. Na Marechal Deodoro, lá perto da João Negrão, viu o Cadillac do diretor do canal de TV. Dentro, os dois – o diretor e a garota propaganda. — Questionada, mais tarde, disse que estavam conversando sobre a renovação do contrato e que ela ficou de pensar no assunto.

Alguns meses depois, mesmo contra a vontade da família, casaram num cartório. Ela deixou a TV para morar em São Paulo. Para lá foram. Queria o glamour da cidade grande. Alugaram um apartamento nas proximidades da Major Sertório, lugar bastante valorizado na noite daqueles anos. Nas proximidades estavam localizadas as mais badaladas casas noturnas: A La Licorne, a Moustache, na Sergipe, a Tonton Macoute, na Nestor Pestana e, nos Jardins ficava a Dobrão, de propriedade do ator Hélio Souto e de Cassiano Gabus Mendes. Nelas passaram Rose Di Primo, Vera Fischer e outras feras dos anos 60 e 70. O pessoal do iê iê iê, também gostava das noitadas frenéticas.

As noites eram boas e o casal era assíduo dessas casas com salões perfumados pelo whisky e pelas fragrâncias francesas das belas paulistas.

Passados alguns meses, sem trabalho, as contas venciam. O Karmann Guia foi vendido. E, logo, só ela frequentava a Dobrão, a Moustache e outras. E, enquanto nas boates tocava “F comme femme”, ele, no apartamento, atirado a uma poltrona de veludo marrom, com um copo de Old Eight, ouvia o tema da sua vida, “Meu mundo caiu”. Chorava e, desiludido, a via chegar com a manhã.

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