
Não poderia ser mais precioso para os avaliadores da História do século 20 o livro “Mussolini e o Papa”, recém-lançado em português, alentado trabalho de pesquisa do historiador norte-americano David Kertzer, professor de ciências sociais na Universidade Brown, Estados Unidos, ganhador do Prêmio Pulitzer de 2015.
É reconhecido mundo afora por sua especialidade, estudos da história italiana. E como especialista tem ganhado diversos prêmios.
ANTISSEMITISMO
David Kertzer, de origem judaica, mantém o distanciamento crítico em relação aos fatos que analisa, como a questão antissemita que permeou a relação papa Pio XI e Mussolini, no período que antecedeu à Segunda Guerra Mundial. Diz, com todas as tonalidades, que o pontífice estava dentro do tônus reinante na Igreja Católica daqueles dias, com os judeus sendo apontados como “culpados pela morte de Jesus”. Isso a despeito, lembre-se, de o Messias cristão ter tido um julgamento segundo as leis romanas vigentes na Palestina/Israel de então.
Mas, claro, não se tem registrada qualquer aprovação papal às atrocidades que marcariam a carreira de Hitler, Goelbels e companhia. Kertzer não coloca a marca de especial antissemita em Pio XI, mas o classifica entre os que, pouco – ou quase nada – fizeram para que a personagem maléfica de Hitler se impusesse naqueles dias.
PIO XII, DE NOVO
Pio XII, que até agora não deve ter merecido a chamada “honra dos Altares” da Igreja por ter seu nome insistentemente vinculado ao nazismo, marca que nele ficou em função dos tempos em que foi núncio da Santa Sé em Berlim, está presente o tempo todo no livro. Não há indicações explícitas de apoio de Eugênio Pacelli (depois, Pio XII) ao nazismo nem a Hitler. Mas, sem dúvidas, de uma certa complacência que, mais tarde, seria explicada como posição adotada para preservar os católicos germânicos da sanha de Hitler, que se mostrava clara.
A visão de Pacelli era a então reinante no catolicismo: os judeus seriam ‘perigosos, dominadores e ligados, até, à montagem do movimento bolchevista que procurava impor-se ao mundo’. Esse era o cântico daqueles dias, com as indefectíveis declarações de que “judeus controlam a comunicação e as finanças mundiais”, e “projetam acabar com o cristianismo”.
ZERO ECUMÊNICO
Para quem procura entender grandes momentos do Ocidente no século 20, é importante registrar: foi com o documento “Nostra Aetate”, do papa João 23, (hoje santo católico, a cuja canonização acompanhei em Roma em abril de 2014) que se desfizeram de vez as marcas antissemitas do catolicismo. Se persistem em certos lugares, são fatos isolados, não têm apoio oficial.
“PÉRFIDOS JUDEUS”
João 23, por exemplo, mandou retirar do ofício de Sexta Feira Santa a expressão sobre a Morte de Jesus – “morto pelos pérfidos judeus”. Isso como parte de todo um processo de reconhecimento do Judaísmo como a matriz do cristianismo e essencial etapa para o diálogo inter-religioso que a instituição passaria a defender com o Concílio Vaticano II. O Concílio ficou conhecido como o momento em que a Igreja abriu “suas janelas para o mundo”. O olhar social do Catolicismo ampliou-se com o Vaticano II, fortalecendo a doutrina definida por Leão XII.
A Igreja era até então praticamente zero ecumênica (casa comum), expressão grega que, fundamentalmente refere-se ao processo de cooperação com igrejas cristãs. Mas que, entende-se, foi sendo alargado para explicar – no entendimento popular – até abertura para outras religiões, como Judaísmo, Budismo, Islamismo.
AVANÇO PROTESTANTE
Nos dias de Pio XI, anos 1930/40, tanto quanto uma pregação antijudaica prevalecia no Vaticano um continuado ‘alerta’ contra o avanço protestante. Ao papa preocupava muito a chegada à Itália de missionários protestantes norte-americanos. Por isso, inúmeras foram as solicitações, insistentes, com que o pontífice procurava com que Mussolini criasse barreiras às denominações protestantes em solo italiano.
O Duce sempre fez corpo mole sobre o assunto protestantes, assim como nem sempre atendeu aos pedidos do papa para excluir das universidades ex-padres que faziam carreira no magistério e pregavam contra a antiga Mater.
Pelo que entendi, Pio XI estava muito mais preocupado com os protestantes do que com os judeus.
Para dizer o mínimo sobre o relacionamento do papa e Mussolini, lendo Kertzer, concluo que o Duce e o pontífice viviam às turras. Raramente se encontraram. Brigavam por meio de seus embaixadores.
As duas partes – a história mostra – se beneficiaram do relacionamento: A Igreja conseguiu reconhecimento oficial a seu espaço físico (Estado do Vaticano) e o pai do fascismo tirou proveito do prestígio da religião para suas propostas políticas.

