
“Em cinco anos, não serão mais vistos muitos diários nas bancas”. A afirmação é do norte-americano Rick Edmonds, analista de negócios de mídia, em entrevista à “Veja” desta semana. A revista dedicou duas páginas ao jornal “Gazeta do Povo”, que põe fim à sua edição impressa no próximo dia 31, depois de quase 100 anos de existência.
MIGRAÇÃO CERTA
Trata-se de um pioneirismo às avessas. Curitiba passa a ser a primeira grande capital brasileira a deixar de possuir um diário com 100 mil leitores ou mais por semana – números que, no caso da Gazeta, não se confirmavam. Os controladores do jornal dão como certa a migração do impresso para o digital por parte do leitor como é certa a aposta que Atlético e Coritiba fizeram ao transmitir a final do Paranaense nas plataformas do YouTube e Facebook. Mas há que considerar o público mais conservador e aquele mais idoso, que ainda não aderiu às novidades tecnológicas.
CAMINHO TORTUOSO
Para estes, as medidas tomadas pela Gazeta, ainda que inevitáveis, soaram como drásticas. Há dois meses, o jornal iniciara uma campanha de renovação de assinaturas anual, oferecendo a versão digital no primeiro mês ao preço de R$ 0,99 e a impressa a R$ 59,90. Era um indício de que seguiria com o papel ainda que a um custo mais elevado. No mês passado, rendeu-se à realidade e aos sucessivos prejuízos financeiros.
PRINCÍPIOS
Há quem afirme que os problemas da Gazeta originaram-se em sua política editorial. Parece que o jornal não está interessado no leitor, mas em princípios que ele mesmo adota. Nos últimos dez dias, a Gazeta vem publicando, em capítulos, o DNA de sua política editorial intitulada “Nossas Convicções”. Tais princípios têm pouco a ver com a defesa da imprensa livre.
SEM TRANSIÇÃO
Sem dúvida, a Gazeta faz uma aposta pioneira, mas despreza a transição a que se impôs, no mundo, o The New York Times, que alcançou no ano passado 1,6 milhão de assinantes digitais e, ao mesmo tempo, ganhou leitores do impresso: 600 mil.
NÚMEROS BAIXOS
Em termos regionais, a Gazeta tem hoje uma circulação semanal da ordem de 360 mil jornais. Mesmo sendo o único jornal de grande porte no estado, vê seus vizinhos alcançarem números bem mais expressivos. Porto Alegre, por exemplo, tem três jornais e circulação de 1,8 milhão para uma população de 1,4 milhão (Curitiba tem 1,8 milhão). Recife, com 1,6 milhão de habitantes, tem dois diários que circulam para 787 mil leitores.
Talvez a versão digital seja a grande aposta de reestruturação da Gazeta. Mas não deve ser a única.
