Atrás da Soeur, em pé, está a Andréa Cordeiro JuvenalNeste recorte de foto se vê melhor a Andréa Cordeiro Juvenal, em pé, atrás da Soeur Cristina.
Boa parte da elite cultural de Curitiba – e também da elite social e dos multiplicadores de opinião — dos últimos 50 anos da cidade está partilhando da grande perda que foi a morte, neste domingo, 14, da irmã Maria Cristina, ou “soeur” Cristina, de Sion, 89, madre e grande referência do colégio Nossa Senhora de Sion. Viveu 63 anos como religiosa-educadora.
Ela não foi apenas educadora, mas sobretudo ajudou a transformar a educação paranaense, introduzindo aqui, por exemplo, o método Montessori. Foi revolucionária em muitos outros sentidos, até politicamente, com certas propostas tidas como meio à esquerda, “numa determinada época”, como me lembra um idoso jornalista que com ela conviveu por anos. Seu “esquerdismo” não teria passado de rebeldia ao arbítrio determinado pelo governo autoritário.
ANOS DE CHUMBO
Houve quem a identificasse com o PT, nos chamados anos de chumbo do país. Isso porque, é bom lembrar, o PT nasceu no espaço do Colégio Sion, em São Paulo, ano 1980.
Na verdade, a mineira Cristina foi alguém que até andava além de seu tempo na tomada de iniciativas: com as enormes mudanças promovidas na Igreja Católica com o Concílio Vaticano II, a religiosa diretora do Sion de Curitiba não foi apanhada de surpresa. Isto porque já era, antes da “abertura das janelas” decretada por João XXIII, um ser sensível ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, o que sempre a fez muito ligada aos judeus (até como parte essencial de sua Congregação de Sion) e à liberdade de escolha religiosa, assim como ao respeito à diversidade de opiniões políticas.
“MELHORES FAMÍLIAS”
Coma morte de irmã Cristina, que a cidade conheceu muito bem – desde os tempos em que Sion era sinônimo de colégio exclusivamente das filhas “das melhores famílias paranaenses”- vai-se uma das melhores partes dessa congregação voltada ao ensino e ao diálogo com outras culturas, e com ênfase no encontro com o Povo Judeu.
Assim, além do desaparecimento físico da freira, os próximos da Congregação do Sion lamentam que a instituição “esteja morrendo aos poucos”. E recordam que o desaparecimento de madre Belém (contemplativa do Sion Solitude) e agora com a morte de Cristina, a instituição sinalize possíveis suspiros finais de um projeto que pode estar nos dias finais por absoluta falta de vocações.