Ninguém ficava indiferente à presença de Eduardo Guimarães, 79, preocupado com Curitiba e com a relação entre Nações. Bom cantor e exemplo de espírito esportivo para os netos, recebeu prêmios internacionais em Arquitetura

Há muitos qualificativos com que se pode aplicar à triste notícia da morte de Eduardo Guimarães. Para mim, que o conhecia há dezenas de anos, fica a imagem de um arquiteto altamente comprometido com sua profissão e a de um carioca que conseguiu ser um “modelar curitibano”.
Isso sem, no entanto, jamais ter perdido o sotaque e algumas marcas da cultura do Rio de Janeiro. Por isso, entre outras razões, fiz de Eduardo personagem do meu livro Vozes do Paraná, volume 7.
Na verdade, as raízes de Eduardo remontam a tradicional família de pernambuco, gente sólida da terra de Manuel Bandeira..
UNIVERSIDADE DO BRASIL
Eduardo, pai de 3 filhas, casado com Maria Consuelo (filha do antológico comerciante Hermes Macedo e senhora), era um tipo raro: envolvia-se até o pescoço na defesa de assuntos de relações internacionais, dirigindo instituição paranaense voltada ao tema; atuava na Associação Comercial e continuava, ao mesmo tempo, trabalhando na profissão para qual fora exemplarmente formado na Escola Nacional de Arquitetura, da antiga Universidade do Brasil.
CHARME CANTOR
Espírito alegre, tinha voz e charme impressionantes, como cantor que poderia, excepcionalmente, encantar salões. Tal como presenciei no segundo Governo Lerner quando ele cantou “New York New York”, durante almoço em homenagem ao então ministro do Exterior, no solar de dona Dedé, na Estância Ouro Fino, em Campo Largo.
Da mesma forma, partilhava com netos – alguns já universitários – praticando momentos únicos em esportes, como temporada de esqui na Argentina. Era dono de enorme resistência física.
A mim sempre me impressionou quanto a boa educação em tradicionais colégios católicos de outrora, no Rio (um deles, talvez o Santo Inácio, não me lembro) marcaram Eduardo. Ele tinha uma formação cristã bem embasada e não faltava à missa dominical.
HORAS NA BIBLIOTECA
Recordo que, quando os monges beneditinos se instalaram no Paraná, na Rodovia para Paranaguá, em fazenda em Piraquara, foi assíduo frequentador. Não partilhava cento por cento da visão política dos monges de père Felipe, mas o encantava a sabedoria monástica e a liturgia. E mais: passava horas na biblioteca inigualável, parte trazida pelos monges da França. Dominava o francês clássico e, claro, o inglês e mais três idiomas.
Há muito a dizer de Eduardo, “um encantador de salões” e um “guerreiro de boas causas nas relações internacionais”, como assinala um dirigente da Associação Comercial do Paraná.
Para mim, ficam de Eduardo Guimarães (que também era Lopes e Pereira) as lembranças de ele me contando como concebeu a grande transformação interna do mais antigo arranha céu de Curitiba, Edifício Garcez, na Boca Maldita.
O trabalho, feito para um shopping que lá se instalou mas pouco durou, deu-lhe prêmios internacionais. Um deles, o maior em Arquitetura do Estado de Kentucky, anos 1980, pelo excepcional ‘retrofit’ que Guimarães
consegui agraciar a cidade.
(AMGH)
