
“Simples, dono de timidez visível”, eis como José Lucio Glomb, presidente do Instituto dos Advogados do Paraná (IAP), classifica parte do perfil do juiz Sergio Moro, olhar registrado a partir do momento em que o magistrado da Lava Jato chegou ao SESC da Esquina, na quarta-feira, para sua conferência sobre lavagem de dinheiro.
“Ele não se abalou, mas a timidez era evidente diante de 400 pessoas que o aplaudiam fortemente na sua chegada”, completou Glomb para a coluna.
Os aplausos intensos foram de quase 5 minutos.
Glomb, ex-presidente da OAB-PR, está acostumado a participar de eventos como aquele do dia 29, em que predominaram advogados e muitos empresários de diversas áreas. Mas se impressionou com a forte ênfase que o juiz colocou: disse que a Lava Jato é, em muitos aspectos, semelhante a Operação ‘Mãos Limpas’, dos anos 1980, na Itália, que declarou guerra à Máfia e congêneres. No entanto, ressalvou:
– Aqui no Brasil, se comparada com a “Mãos Limpas”, não aconteceu nada… – declarou Moro, fazendo paralelo entre as prisões preventivas que a justiça de Itália decretou e as que ele determinou.
Com as “Mãos Limpas” foram 800 prisões preventivas, esclareceu Moro, numa das partes mais preciosas de sua fala de uma hora sobre a lavagem de dinheiro. Tal como previsto, ele não analisou o andamento da Lava Jato.
Na operação que decide, Moro não decretou nem 10% de prisões comparadas com as da Itália. Nada comparada com as decisões italianas.
2 – TRANSPARÊNCIA
Moro por alguns momentos fez insights em psicologia social. Disse, por exemplo, considerar a corrupção como componente do ethos de boa parte dos seres humanos. Fixou-se, a seguir, nas avaliações internacionais da Transparência Mundial, que colocam o Brasil em 67 lugar em plano mundial, entre os países transparentes. Referiu-se ao Chile e Uruguai, como exemplos nas Américas de boas posições em transparência.
O presidente do IAP, Lucio Glomb fez interferência oportuníssima: lembrou que os países nórdicos são campeões da transparência, alguns com leis que existem desde o século 18.
A ampla fala de Moro ensejou observação do mesmo Glomb, na ocasião, reclamando o porquê da regulamentação da Lei da Transparência, em 2012, ter excluído as empresas públicas, hoje, em parte, grandes focos de corrupção.
3 – PENAS MAIORES
Moro não joga ‘soft” quando o tema é corrupção, especialmente a encravada no Estado brasileiro. Deu ênfase a projeto de alteração do processo penal, de que ele é um dos autores com outros juízes ligados à Associação dos Juízes Federais do Brasil.
A prescrição das penas é uma das chaves para a sobrevivência da corrupção, admitiu Moro. Por isso, o projeto dele e seus colegas prevê encurtar os caminhos da procrastinação judicial, a aplicação de penas mais fortes para os corruptos e, também, o começo de execução das penas a partir de decisões de segundo grau.
Muitos personagens da vida empresarial do Estado foram à conferência, como o presidente da FIEP, Edson Campagnolo.
E, em nome do chamado G-Sete – que reúne as mais expressivas entidades empresariais do Estado – foi lida pelo jornalista Carlos Marassi mensagem de apoio a Sergio Moro e à Operação Lava Jato.
O auditório prorrompeu em palmas, em pé, dando aval ao documento e manifestando apoio à luta do juiz.
Ninguém duvide: foi uma noite rara na história do Direito e da Justiça no Brasil.
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