Por Raul Urban* – Na colaboração anterior, publicada no início de dezembro, Mário Guerra foi a personagem de destaque, quando o tema era o modelo de trânsito reinante numa Curitiba que, só na década de 1940, ganhou seus primeiros semáforos – mais exatamente, em 1948. Até então, guardas civis, do alto de um tablado instalado no centro dos principais cruzamentos da cidade, com mãos e braços agitados, tentavam colocar ordem de o que, já à época chamavam de “trânsito selvagem”.
A situação ganhou um novo capítulo com a criação do Departamento de Serviço de Trânsito (DST), que passou a ser comandado por um nome que se tornou uma lenda – Mário Guerra e seus subordinados, todos colocando o tráfego em ordem a bordo das então possantes e também lendárias motocicletas Harley Davidson, com 1.200 cilindradas cada, potência similar aos dos velhos e lembrados Fuscas, nos anos 1960, “bólidos” que compunham a frota das antigas frotas da Rádio Patrulha.
Nascido em agosto de 1908, Mário Guerra, inspetor conhecidíssimo pelo seu volumoso tipo físico, faleceu em 2011. Depois de deixar o DST, mudou-se ara a cidade paulista de Sorocaba, onde, de 1983 até sua morte, atuou como procurador no Serviço Autônomo de Água e Esgoto. Sua fama ultrapassou as fronteiras do Paraná, e Guerra acabou imortalizado em uma as tantas gravuras do saudoso artista plástico curitibano Poty Lazzarotto. Dez anos após seu falecimento, em junho de 2021, o Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR) prestou homenagem ao antigo e fiel funcionário.
O também saudoso historiador Valério Hoerner Júnior, autor do livro “Ruas e histórias de Curitiba” (Editora Arte & Textos – Curitiba, 1989), deixou o seguinte texto sobre o inspetor, cuja transcrição contribui para a preservação da memória histórica urbana
Mário Guerra e a “Harley-Davidson”
Por Valério Hoerner Júnior: “…o rei da garotada nos anos trinta e quarenta foi Mário Guerra, funcionário do Departamento de Trânsito. Grandalhão, musculoso, cabelo avermelhado, o gigante se movimentava velozmente pela cidade em sua superpossante Harley-Davidson, último modelo. Abrindo uma procissão, Mário Guerra inspirava mais respeito que os santos nos seus andores. Nos desfiles de carnaval, sua motocicleta e sua figura atraíam mais atenção do que os carros alegóricos. Centauro com sirena, chefiando a escolta de algum visitante ilustre, era o primeiro a ser visto e o último a ser esquecido”.
O texto acima, de Valêncio Xavier, é talvez o mais feliz dentre quantos tenham sido escritos sobre alguma figura conhecida do público. Apesar da aparente hipérbole na visão poética de Xavier, nenhum debuxo foi tão real e tão caracteristicamente bosquejou os traços dessa figura positivamente incontroversa. Na verdade, Mário Guerra também pertence à década de cinquenta, tornando-se célebre por ter sido personagem obrigatória do dia-a-dia da cidade.
Se houvesse acidente, era o primeiro a chegar. Estava sempre no lugar certo. Atrás dos inseparáveis óculos “ray-ban” e da peculiar imponência, porém, jamais abusou da autoridade que possuía por seu poder de polícia. Sem truculência, buscava sempre a melhor forma que lhe parecia diante dos problemas. Uma singular postura. E era acatado. E nem tanto pela irretocável postura, mas pela compostura que dele fazia uma autoridade verdadeiramente exemplar.
Mecânico de profissão, depois de rápida passagem pela Prefeitura Municipal, vinculou-se ao departamento encarregado de zelar pelo insipiente trânsito curitibano.
Dali para frente, desempenharia diversas funções, inclusive a de diretor-substituto. Começou como inspetor, compondo o batalhão (sic) de fiscalização, o qual, se não me engano, era composto de apenas três pessoas: ele, Guerra, mais Queje e Carmelo. Equipados com formidáveis Harley-Davidsons, faziam a curiosidade do povo e o assombro e pasmaceira da garotada, que, admirando-os, temiam-nos e respeitavam.
Metidos na farda verde, logo ganharam o apelido de “grilo”. Mais tarde, dada a expansão urbana, aumentou o número de componentes do batalhão, e também a popularidade do Guerra. Gordo e forte, tendia para bonachão. A face rosada refletia a cabeleira ruiva. Do alto de seu metro e mais de oitenta, como um Poliferno, submetia o reino de Liliput: o “grilo-chefe” oferecia personalidade ao soberbo batalhão. Com naturalidade converteu-se na suprema autoridade oficial no meio popular: era o comandante de todos os desfiles físicos, esportivos ou religiosos: era a figura máxima de todas as paradas e trajado em gala, farda branca, botas brilhando, aboletado na motocicleta. Mário Guerra era tão importante nesses acontecimentos que se tinha a nítida impressão de que se ele lá não estivesse o desfile ou a procissão não começava.
Diante dos tanques do exército, ele na Harley chegava a ser o mais vistoso. Compenetrado, o “grilo-chefe” garantia tanto o som do bumbo quanto as ladainhas nas procissões.

O porquê de o já citado Poty Lazzarotto ter inserido Mário Guerra no chamado “panteão dos heróis” – uma alusão às personagens reproduzidas com sua arte Brasil e mundo afora, está numa citação do próprio inspetor, em meio a uma roda de amigos, ao se referir ao risoto preparado pela mãe do artista,dona Júlia, no antológico restaurante familiar conhecido pelo nome de Vagão Armistício, que existia nos fundos da residência dos Lazzarotto, no Cajuru. Segundo Valério Hoerner:
“…em certa feita, Mário Guerra14, funcionário do Departamento do Serviço de Trânsito (atual DETRAN), contou para o então chefe do Estado, Manoel Ribas (1932-1945), sobre um “risoto incrível” que era servido em uma cantina da cidade. E foi assim que o então Interventor do Paraná teve contato com a famosa iguaria de dona Julia. A paixão foi instantânea. Costumeiramente Manoel Ribas jantava no Vagão e, em 1942, depois de observar por várias vezes Poty “rabiscando” em um canto à mesa, ofereceu ao jovem desenhista uma bolsa de estudos para frequentar a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), na capital federal Rio de Janeiro. Assim, o garoto iniciava sua jornada para se tornar artista.”
Neto do inspetor, o arquiteto Hélio Guerra Borchardt também rememorou atos e fatos de seu avô, enriquecendo a historiografia curitibana, aqui parcialmente reproduzida, acrescentados dados antes não citados:
“Mário Guerra era neto de Prosdócimo Guerra, um dos primeiros italianos a se estabelecer no Campo do Paraná, em Curitiba, onde atualmente temos os bairros Centro Cívico e Juvevê. Italiano de Cittadella, emigrou para o Brasil em 1885 e fincou raízes no bairro do Ahú/Juvevê, em Curitiba, tendo doado parte do terreno de sua chácara para a construção da Società Italiana di Mutuo Soccorso Vittorio Emanuelle III, rebatizada durante a II Guerra Mundial como União Recreativa Cultural Ahú, a URCA. Infelizmente o imóvel foi demolido antes do tombamento, virando um Super Muffato (na rua Alberto Folloni).
Mário Guerra foi presidente da URCA diversas vezes. Seu pai, Victorio Guerra, foi proprietário da Cervejaria Pomona. A Fábrica de Bebidas Pomona, criada em 1901 por Victorio Guerra e Albino H. Prohmann, funcionava na rua Manoel Eufrásio, bairro Juvevê, Curitiba. Além de cerveja, produzia também gasosa de framboesa e a tradicional gengibirra, bebida trazida pelos italianos que vieram para o Paraná no século XIX. A fábrica foi vendida em 1910 para o sr. Arthur Iwersen, proprietário da Cervejaria Atlântica, que produzia uma cerveja clara e uma cerveja bock, essa última indicada para períodos frios.
A Brahma viria a adquirir as instalações da Cervejaria Atlântica em 1942, criando nela a sua filial paranaense. Das informações extra oficiais (minha mãe), o Mário Guerra ia para cima e para baixo com o Manoel Ribas e outros governadores e prefeitos. Além de simpático, com seu quase 1,90 m e 120 kg impunha respeito aonde ia, como bem disse Valêncio Xavier.”

*Raul Urban é jornalista, escritor, memorialista, pesquisador da memória histórica e ligado à área do transporte multimodal integrado e colaborador do Mural do Paraná.
