Por Lucas Jensen – Quando chegamos em uma determinada idade, em teoria no início da fase adulta, nos deparamos com escolhas que ditam o rumo da nossa vida. Relacionamentos, profissão, estudo, onde vamos morar, o que gostamos de fazer, qual é a nossa rotina e por aí vai.
Nós somos preparados para isso. Desde os primeiros anos nos perguntam “o que você quer ser quando crescer?”. Toda a vida escolar é voltada para “nos preparar”. Só que, ao saber lidar com as escolhas, dificilmente estamos equipados para lidar com as não-escolhas.
Não-escolhas são todas as alternativas que não são selecionadas, por mim ou pelas circunstâncias, ao longo de inúmeras encruzilhadas decisórias que temos pela frente. Principalmente depois de “adultar”. Somos condenados a ser livres, como diria Sartre, paradoxalmente. Somos lançados à existência e depois à maioridade com uma liberdade inescapável. Uma não-escolha, no fim, é uma escolha, segundo o pensamento de Sartre.
Porém, eu sempre tive uma certa dificuldade em aceitar que eu não vou fazer o gol da Libertadores aos 49 do segundo tempo, ou ser um sniper traumatizado em busca de redenção, ou um surfista havaiano com nome cheio de vogais, ou um sobrevivente do apocalipse das máquinas que lidera a rebelião, ou um herdeiro de uma fazenda leiteira no Nantucket.
O mais engraçado é que eu nunca quis, nem quero ser essas coisas. Não de verdade. O simples fato de eu não ter a possibilidade de sê-las traz um sentimento de luto. Luto por todas as minhas vidas não vividas, por todas as não-escolhas. Por tudo o que eu – e todo mundo – tive que abrir mão para seguir o caminho que escolhi trilhar.
Sylvia Plath, em “A Redoma de Vidro”, exemplifica muito bem esse sentimento de paralisia perante as decisões:
“Eu vi minha vida se ramificando diante de mim como a figueira verde na história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo gordo, um futuro maravilhoso me chamava e piscava. (…) Eu me vi sentada na fenda dessa figueira, morrendo de fome, apenas porque não conseguia decidir qual dos figos eu escolheria. Eu queria cada um deles, mas escolher um significava perder todos os outros, e, enquanto eu estava ali, incapaz de decidir, os figos começaram a enrugar e ficar pretos, e, um por um, foram caindo no chão aos meus pés”.
Quando o bicho pega, volto às ideias de gente mais inteligente e sábia que eu. Søren Kierkegaard é fundamental para entender o sofrimento pelas vidas não vividas. Para ele, o ser humano é a síntese entre temporal e eterno, e a liberdade de escolher é o que nos define, mas também o que nos desespera.
Essa vertigem da liberdade, essa angústia, não é medo de algo externo, mas a consciência da própria liberdade. O medo não é de cair no abismo, mas de perceber que temos a possibilidade de nos jogar.
Heidegger expande isso. Para ele, toda escolha é inerentemente uma negação. Ao escolhermos X, estamos assassinando Y e Z, e todas as outras letras. Ele afirma que vivemos em um estado de dívida existencial por não podermos realizar todas as nossas potencialidades.
Esther Greenwood, a protagonista de Plath, é a assassina de Heidegger e está paralisada diante do abismo de Kierkegaard. Essa paralisia vem com uma sensação de culpa, arrependimento, nostalgia, medo do futuro, raiva do presente…
No meu caso, não acho que arrependimento seja a palavra certa. Eu gosto da minha vida. Hoje sei quem eu sou. Pelo menos sei mais do que em outros momentos. Sei muito mais o que não sou. Mas isso não quer dizer que não dá aquela saudade de coisas que eu não vivi (como diria o “poeta”).
Desde criança tenho esses sentimentos. Quando pequeno, chamava pelo “Irmão Bernardino” o tempo todo. Quem seria essa figura enigmática continua um mistério na minha família até hoje. Assim como eu achar, antes dos 5 anos de idade, que os carros cobertos com capa protetora estavam mortos, é uma coisa que dificilmente saberei o porquê.
Se eu fosse uma criança niilista, poderia ter encontrado uma solução no Amor Fati, de Nietzsche. Enquanto os dois pensadores que eu trouxe aqui focam no peso do que foi perdido, Nitinho propõe “amar o seu destino”. Em vez de lamentar as vidas não vividas, deve-se desejar que a vida vivida se repita eternamente. Para ele, a ideia de caminhos não trilhados é vista como uma fraqueza. O Übermensch (super-homem) não olha para trás com melancolia porque afirma a sua escolha com tamanha força que as alternativas perdem o sentido.
Hermann Hesse foi profundamente influenciado por Nitinho. Para Hesse, a não-escolha não é um luto, mas uma necessidade de descartar caminhos falsos para encontrar a própria essência. Vemos isso tanto em “Demian” quanto em “Sidarta”.
O ponto é que somente aprendendo a aceitar as nossas não-escolhas é que vamos acreditar nas escolhas. Para mim, parece ainda muito irreal e distante a vida de quem sempre soube que queria cavar poços na África, de quem ganha a vida fazendo malabarismo, ou de quem dedica cada minuto à fotografia.
Eu nasci para escrever, mas também penso em passar pelo treinamento dos monges Shaolin, plantar tomate num sítio em Pindamonhangaba, largar tudo e virar influencer nômade para comer sorvete de cebola na Calábria às quartas-feiras. E todas essas não-escolhas, muitas vezes, me impedem de fazer o que eu mais quero.
Novamente peço “ajuda dos universitários” e encontro uma resposta dentro do quintal. Machado de Assis, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, traz uma visão irônica e absurdista sobre esse e outros assuntos. O Defunto Autor mostra que a morte é o limite final que anula todas as não-escolhas. No fim da vida, o peso da escolha perfeita desaparece quando você percebe que a imensa maioria das alternativas terá o destino do esquecimento.
Machadão quer nos dizer que o valor da vida não está em acumular sucessos, mas em entender e aceitar que a perda faz parte do ganho. A vida acontece nas entrelinhas das escolhas imperfeitas, não no projetinho que nunca saiu do papel.
Quase o mesmo nos fala Albert Camus. A preocupação com as não-escolhas é medo que o caminho não trilhado fosse o salvador. O seu absurdismo elimina o medo ao afirmar que nenhum caminho é inerentemente melhor que o outro.
Acredito que Machadão e Camus teriam sido amigos. No mínimo, simpatizantes. Aí então, com a permissão de vocês, ficaríamos nós três bebericando café numa praia da Argélia, contando causos com leveza e coragem. Porque é necessário coragem para viver dessa forma. E ainda mais coragem para me colocar na mesma frase que os dois.
Bom, mas não é sobre isso que estávamos falando?

Lucas Jensen é jornalista, publicitário e escritor, formou-se em 2019, mas trabalha com comunicação há mais de 15 anos. O autor do livro “Continue Voltando: histórias de recuperação” tem um altar para Haruki Murakami, é mestre em dar pitacos, fã de livros clássicos, colecionador de listas de leitura, pai de pet e marido de psicóloga.
