Coluna publicada originalmente no HOJEPR – Mariano Lemanski está no Linkedin, uma rede da internet que funciona como um classificado de empregos. Chairman da RPC (Rede Paranaense de Comunicação), afiliada da TV Globo no estado, ele detinha, até a sexta-feira passada, 50% da participação acionária do grupo. Agora é o dono.
Se aspirava um novo emprego, portanto, conseguiu. Lemanski está assumindo o controle de oito emissoras de televisão e de duas rádios, estas em Curitiba: a Mundo Livre e a 98 FM. Seus sócios, membros da família de Francisco Cunha Pereira, falecido em 2009, e até então proprietários da outra fatia, ficam com apenas um pedacinho minoritário.
Esse é o segundo movimento que Lemanski faz para assumir, em sua totalidade, o controle do grupo de comunicação. Em 2016, o empresário vendeu suas ações na Gazeta do Povo aos filhos de Cunha Pereira por um valor simbólico: R$ 1,00. Livrou-se assim das dívidas, das pendências com o fisco e das ações trabalhistas.
Braço direito
O pai, Edmundo Lemanski, comprara o jornal no ano de 1962, em sociedade com o advogado Cunha Pereira, seu braço direito à época. Porém, ao longo dos anos, o jornal tornou-se deficitário, mesmo detendo o naco gordo do mercado publicitário e a maior tiragem entre os diários locais. Os motivos, em parte, podem ser atribuídos à concorrência com a internet. Mas isso não é o principal.
A verdade é que os Cunha Pereira meteram as mãos pelos pés. Na maioria dos casos em aventuras empresariais que visavam desafiar concorrentes (daquele jeito morde e assopra) e dominar o mercado de comunicação sem um tico de avaliação de riscos.
Um ano depois de vender o jornal por uma moeda, Lemanski assistiu a Gazeta encerrar sua circulação impressa e embarcar na versão digital adotando princípios que transitavam entre o catolicismo fundamentalista e a ultradireita.

O mesmo realejo
Presidente do grupo até então, o filho de Cunha Pereira justificou a venda das emissoras de televisão e rádios ao interesse da família em outras frentes de negócios, mas não disse quais eram. São os mesmos motivos tocados no realejo de nove anos atrás, quando a Gazeta rumou para o celular e para o tablet em busca do novo leitor. Deu no que deu.
Já citei, em outra coluna, (leia aqui), a empreitada maluca do tabloide diário ‘Primeira Hora’, cujo naufrágio ocorreu em tempo recorde: um ano. Há mais. Em 2011, o grupo lançou o canal ÓTV na televisão a cabo. O propósito era oferecer ao curitibano uma programação que falava de Curitiba. Três anos e meio. Foi esse o tempo que o canal permaneceu no ar, tal o constrangimento jornalístico.
Com o controle da parte rentável do grupo, resta indagar se Mariano Lemanski pretende mudar a grade de programação local. Ou teremos mais feirinhas de artesanato tomando 20 minutos do noticiário do dia? Outra pergunta: será que, ao assumir o comando acionário do grupo, Lemanski convidou os Cunha Pereira a encarar novos desafios profissionais? Assim os funcionários do jornal são demitidos. A vingança é um prato frio.
Em tempo
Demorou, mas a Gazeta do Povo enfim digitalizou seu acervo. É uma oportunidade para conferir o filão humorístico involuntário de parte do seu noticiário. Eu trabalhei no jornal. Estou disposto a admitir todos os meus lapsos de imprensa. Assinados e não assinados. Será que a Gazeta fará o mesmo?

Marcus Gomes é jornalista e advogado. Escreve sobre política, direito, condomínios e assuntos do dia a dia. Sugestões de conteúdo para redacao@bonijuris.com.br
