quarta-feira, 11 fevereiro, 2026
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Marcus Gomes: É possível despichar com a arte do pichador

O edifício Santa Rosa, na praça Tiradentes, já foi um arranha-céu. Tem oito andares, piso de granito e laje impermeabilizada. Inaugurado em 1940, ele oferece um sistema de encanamento com água aquecida, banheiras em louça e espaço para telefone. Muitos não sabem, mas essa é uma engenhoca inventada para que a pessoas falem (de verdade) entre si, mesmo que a distâncias consideráveis.

O Santa Rosa foi um dos primeiros edifícios condominiais a dispor de um elevador. Até hoje é o mesmo. Na fachada, há uma iluminação tubular em forma de termômetro. Um detalhe moderno em um ambiente de protomodernismo.

Em anos recentes, o condomínio foi pichado, os prédios vizinhos foram pichados, a estação-tubo em frente foi pichada, a porta de correr do pasteleiro foi pichada e, salvo engano, um senhor que ganhava uns trocados bancando a estátua viva na esquina também foi vítima de pichação.

Bigodeada

Edifício Santa Rosa, na Praça Tiradentes. Fotografia: Elizabeth Amorim de Castro / Memória Urbana

O que fazer? Despichar é o processo óbvio, mas no caso do Santa Rosa não é tão óbvio assim. Se pintado, a tinta ocultaria o material com o qual o prédio foi construído: o pó de pedra. Pense na Mona Lisa bigodeada. Não basta passar tinta por cima.

A prefeitura impõe multas pesadas aos pichadores. Um deles desembolsou R$ 22 mil por ser reincidente. A solução passa por pichar de novo. Mas com arte. Há uma associação não-governamental na cidade que se dispõe a fazer isso. Se Curitiba e os curitibanos não sabem disso, bem feito.

Com 25 anos de história, a entidade oferece serviços de zeladoria urbana, que incluem a despichação e excluem o dinheiro público. Acredite. Quem paga são as garantidoras de condomínio, empresas que adiantam a receita da taxa aos síndicos para que se defendam da inadimplência.  Em parceria com o Tribunal de Justiça do Paraná, a entidade aplica medidas socioeducativas aos pichadores. Eles são obrigados a cumprir horas de trabalho voluntário no estúdio de arte localizado na sede da associação.

Eles chamam de ‘pixo’

Trata-se de uma oportunidade. Os pichadores podem se tornar grafiteiros, pintores, muralistas, serigrafistas e azulejistas. A entidade doa tempo e material. O prefeito da capital e todas as secretarias e regionais subordinadas a ele sabem disso. A Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil (ACGB/Vida Urbana) – pronto, dei nome aos bois – pode ensinar o pichador a despichar com arte.

Em meados de 2025, a associação inaugurou um painel de azulejos na Travessa da Lapa que dantes era picho e decadência. O trabalho, é bom frisar, não incluiu apenas a instalação de 18 painéis contando a história dos monumentos históricos da capital.

O muro de 40 metros também foi recuperado, selado e pintado. Entre os artistas que colaboraram com o projeto, seja pintando com nanquim ou caneta bic preta, a maioria passou pelo picho (para eles é ‘pixo’).

Não é um clichê

Recentemente, vereadores da capital, dispostos a jogar com a torcida, apresentaram um projeto que quer despichar com grafite e dispensar multas. Bobagem. Pichar é crime e a punição tem que doer em algum lugar. A ACGB/Vida Urbana parece ter o caminho das pedras. O grafite não é sempre a solução. Em prédios públicos ou tombados pelo patrimônio público, jamais.

A saída parece ser a educação pela arte. E isso não é um clichê. Os murais de azulejos da ACGB/Vida Urbana provam, por A + B, que onde há azulejo não há picho. Respeita-se um código não escrito quando a arte envolve os que frequentaram a escola do picho e se tornaram outra coisa – tatuadores, por exemplo.

Mas o limite é esse. De um lado, a arte. De outro o picho. E o picho é lixo.

Marcus Gomes é jornalista e advogado. Escreve sobre política, direito, condomínios e assuntos do dia a dia. Sugestões de conteúdo para redacao@bonijuris.com.br

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